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sábado, 15 de outubro de 2011
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
...vou vivendo, doutor...
A testemunha descreve a cena tal qual a vítima fez constar no boletim de ocorrência. Por volta das 16h do dia 19 de outubro, o estagiário, após entregar um processo na seção de documentos administrativos, que fica no subsolo do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, dirigiu-se para a agência do Banco do Brasil no complexo de prédios da corte a fim de fazer um depósito por envelope para uma amiga. Vestindo camisa polo, calça jeans e sapato social, foi informado por um funcionário da agência de que em apenas um dos caixas eletrônicos poderia ser feita a transação. Justamente aquele, em uso por um homem de terno e gravata, aparentando 1,60 metro, que ele inicialmente não reconheceu. Postou-se atrás de linha de espera, traçada no chão da agência. O diálogo que se seguiu foi o seguinte:
.
- Quer sair daqui? Estou fazendo uma transação pessoal – disse o senhor, após voltar-se duas ou três vezes para trás, “de forma um tanto áspera”, como relataria o jovem, em seu português impecável.
,
- Senhor, eu estou atrás da linha de espera. – foi a resposta, “em tom brando”, como contou, ou “de forma muito educada”, na confirmação da testemunha.
.
- Vá fazer o que tem que fazer em outro lugar! – esbravejou o homem em frente ao caixa eletrônico.
,
- Mas, senhor, minha transação só pode ser feita neste caixa…
,
- Fora daqui! – o grito, a essa altura, chamou a atenção de pessoas que passavam e aguardavam na agência.
,
E foi completada pelo veredicto, aos brados:
,
- Eu sou Ari Pargendler, presidente deste tribunal. Você está demitido, entendeu? Você está fora daqui, isto aqui acabou para você. De-mi-ti-do!
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- Quer sair daqui? Estou fazendo uma transação pessoal – disse o senhor, após voltar-se duas ou três vezes para trás, “de forma um tanto áspera”, como relataria o jovem, em seu português impecável.
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- Senhor, eu estou atrás da linha de espera. – foi a resposta, “em tom brando”, como contou, ou “de forma muito educada”, na confirmação da testemunha.
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- Vá fazer o que tem que fazer em outro lugar! – esbravejou o homem em frente ao caixa eletrônico.
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- Mas, senhor, minha transação só pode ser feita neste caixa…
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- Fora daqui! – o grito, a essa altura, chamou a atenção de pessoas que passavam e aguardavam na agência.
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E foi completada pelo veredicto, aos brados:
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- Eu sou Ari Pargendler, presidente deste tribunal. Você está demitido, entendeu? Você está fora daqui, isto aqui acabou para você. De-mi-ti-do!
Assim terminou a carreira do estudante de administração Marco Paulo dos Santos, de 24 anos, na segunda mais alta corte do País. Ele entrara no STJ no início do ano, após passar por um processo seletivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), na capital federal, do qual participaram mais de 200 candidatos. Marco ficou entre os dez primeiros. Todos os dias, saía do apartamento onde mora com a mãe e o irmão em Valparaíso de Goiás, cidade-satélite a 35 km de Brasília, e levava uma hora de ônibus até chegar ao estágio. Dava expediente das 13h às 19h, pelo que recebia R$ 600 por mês, mais R$ 8 por dia de auxílio-transporte. Pouco importa. Martelo batido. “Foi uma violência gratuita”, avalia a brasiliense Fabiane Cadete, de 32 anos, que estava sentada com uma amiga na fila de cadeiras ao lado dos caixas eletrônicos naquele dia. “Ele (Pargendler) gritava, gesticulava e levantava o peito na direção do Marco.” Chamou-lhe especialmente a atenção a diferença de estatura – literal, no caso – dos dois protagonistas. Marco tem 1,83 metro. “O juiz puxou tanto o cordão do crachá para ler o nome do menino, que as orelhas dele faziam assim, ó”, mostra ela, empurrando as suas próprias como se fossem de abano.
Batalha difícil
Fabiane conta que ficou receosa antes de decidir depor em favor de Marco – que, no dia seguinte, registrou queixa por “injúria real” contra o presidente do STJ na 5ª delegacia da Polícia Civil do Distrito Federal. Funcionária de uma empresa que presta serviços ao tribunal, ela jura que nunca tinha visto Marco antes na vida, mas ainda assim se dispôs a contar o que viu. A amiga, que tem mais anos de casa no STJ, preferiu se preservar. “Eu não me sentiria em paz comigo mesma se não falasse”, explica Fabiane, que cursa direito no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). “Como futura advogada, fiquei decepcionada com o ministro.”
Como Ari Pargendler só pode ser julgado em instância superior no Judiciário, o delegado Laércio Rossetto encaminhou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde o processo corre em segredo de Justiça. Remetido inicialmente para a ministra Ellen Gracie, esta se declarou impedida por manter relações de amizade com Pargendler. Redistribuído pelo presidente do Supremo, Cezar Peluso, caiu nas mãos do ministro Celso de Mello, jurista que não tem por hábito “sentar em cima” dos casos mais polêmicos.
O depoimento de Fabiane animou o até então cauteloso advogado de Marco, preocupado em não expor seu cliente a uma contraofensiva judicial. “Não tenho vocação nenhuma para Policarpo Quaresma”, diz Antonielle Julio, que teve uma prévia das dificuldades que vai enfrentar quando solicitou à gerência do Banco do Brasil no STJ as imagens do circuito interno de segurança, que revelariam facilmente quem está com a razão. Ouviu que o sistema apresentou falha técnica e “não há imagem alguma”.
A Bíblia e os ‘policiais’
Marco Paulo dos Santos é negro, filho de brasileira com africano e nascido na Grécia. Vista de perto, sua história de vida é tão espantosa quanto o diálogo supostamente travado na agência bancária do STJ. Sua mãe, a doméstica Joana D’Arc dos Santos, de 56 anos, natural de Raul Soares (MG), passou como ele por um concurso que mudaria o rumo de sua existência. Ainda solteira, na década de 80, leu um anúncio no jornal Estado de Minas em que a esposa de um diplomata mineiro procurava uma empregada para acompanhar a família em seu novo posto no exterior. Quando chegou a Belo Horizonte para a entrevista, uma centena de candidatas já havia passado pelo crivo da patroa, mas foi Joana quem levou. “Ela agradou mais de mim”, conta, na construção típica da zona da mata mineira.
Em Atenas, Joana conheceu o marinheiro cabo-verdiano José Manoel da Graça, que trabalhava em um navio petroleiro. O namoro deslizava em mar de rosas, quando o patrão recebeu ordens do Itamaraty para se transferir para a Embaixada do Brasil no Chile. E lá se foi Joana D’Arc de volta para a América. Mas, com banzo de seu africano, em pouco tempo abandonava o emprego para voltar a sua odisseia grega. Amigou-se com Manoel em Atenas e teve com ele dois filhos: Daniel David e Marco Paulo.
Cinco anos depois, foi a saudade do Brasil que bateu e Joana embarcou de volta com os meninos. Primeiro, para Minas; depois, Brasília. Manoel foi navegar outros mares. “Fiquei esperando, porque ele nunca disse que não vinha. Os telefonemas foram rareando, só Natal, aniversário… E Manoel acabou não vindo”, dá de ombros. Hoje, é com a tormenta jurídica do caçula que ela se preocupa. “Sabe como é, a gente foi criada no negócio do ‘deixa pra lá’. Mas ele decidiu assim, entrego nas mãos de Deus.”
Em casa, o primogênito Daniel, hoje com 27 anos, é o voluntarioso e bem-humorado. Já Marco sempre foi introvertido e responsável. A mãe conta que, enquanto faxinava nas casas de família, o garoto dava um jeito de se enfurnar na biblioteca dos patrões. “Sempre foi menino de ler. Passava duas, três horas… eu até esquecia dele.” Daí a facilidade, talvez, com que passou em todos os testes que fez até hoje, inclusive o do Prouni – programa de bolsas de estudos do governo, que lhe permite cursar administração no Iesb.
Evangélico, como toda a família, Marco traz sempre a Bíblia debaixo do braço. E algum romance policial de Agatha Christie e Conan Doyle. Mas também passeou por leituras mais substanciosas, como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. “É uma aula de vida. Ele juntou todo o conhecimento de como se governar, lidar com as pessoas, a política e o poder. É muito útil para um administrador”, ensina o estagiário defenestrado do STJ.
Na melodia do Supremo
Outro dos talentos de Marco é a música. Na igreja, deu seus primeiros acordes. E logo conseguiu uma bolsa no tradicional Clube do Choro de Brasília, onde estuda violão de sete cordas. O professor, o instrumentista carioca Fernando César, de 40 anos, é só elogios: “Ele é um cara supertranquilo, aplicado e musical. Lê muito bem partitura”. Empreendedor precoce, escreveu e lançou em junho, por uma editora evangélica, um método de ensino de violão para os fiéis sem condições de pagar por um curso. Agora, ainda desempregado, dedica-se com mais afinco à execução de clássicos como Vou Vivendo, de Pixinguinha, cujos versos finais são: “Vou vivendo assim/ Porque o destino me fez um vadio/ Novo endereço ele vai traçar/ E virei para te avisar/ Quando à noite uma toalha de estrela/ Tiver para me cobrir”.
Mesmo apreensiva, Joana D’Arc não esconde o orgulho pela coragem do filho em enfrentar o presidente de uma das instituições mais poderosas do País. “Antes de ir para a Grécia eu era um bicho assustado. Achava que por ser negra e pobre era normal ser humilhada e maltratada. Mas lá, a gente entrava num restaurante ou em qualquer lugar chique e era recebido como todo mundo. Então, não deixei meus filhos crescerem com esse pensamento meu.”
Procurado pela reportagem do Aliás para dar sua versão dos fatos, o ministro Ari Pargendler disse por intermédio da assessoria que não vai se manifestar. No telefone da corte, em chamada de espera, ouve-se a seguinte mensagem: “Ter acesso rápido e fácil à Justiça é um direito seu. STJ, o Tribunal da Cidadania”.
fonte: Estadão
Batalha difícil
Fabiane conta que ficou receosa antes de decidir depor em favor de Marco – que, no dia seguinte, registrou queixa por “injúria real” contra o presidente do STJ na 5ª delegacia da Polícia Civil do Distrito Federal. Funcionária de uma empresa que presta serviços ao tribunal, ela jura que nunca tinha visto Marco antes na vida, mas ainda assim se dispôs a contar o que viu. A amiga, que tem mais anos de casa no STJ, preferiu se preservar. “Eu não me sentiria em paz comigo mesma se não falasse”, explica Fabiane, que cursa direito no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). “Como futura advogada, fiquei decepcionada com o ministro.”
Como Ari Pargendler só pode ser julgado em instância superior no Judiciário, o delegado Laércio Rossetto encaminhou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde o processo corre em segredo de Justiça. Remetido inicialmente para a ministra Ellen Gracie, esta se declarou impedida por manter relações de amizade com Pargendler. Redistribuído pelo presidente do Supremo, Cezar Peluso, caiu nas mãos do ministro Celso de Mello, jurista que não tem por hábito “sentar em cima” dos casos mais polêmicos.
O depoimento de Fabiane animou o até então cauteloso advogado de Marco, preocupado em não expor seu cliente a uma contraofensiva judicial. “Não tenho vocação nenhuma para Policarpo Quaresma”, diz Antonielle Julio, que teve uma prévia das dificuldades que vai enfrentar quando solicitou à gerência do Banco do Brasil no STJ as imagens do circuito interno de segurança, que revelariam facilmente quem está com a razão. Ouviu que o sistema apresentou falha técnica e “não há imagem alguma”.
A Bíblia e os ‘policiais’
Marco Paulo dos Santos é negro, filho de brasileira com africano e nascido na Grécia. Vista de perto, sua história de vida é tão espantosa quanto o diálogo supostamente travado na agência bancária do STJ. Sua mãe, a doméstica Joana D’Arc dos Santos, de 56 anos, natural de Raul Soares (MG), passou como ele por um concurso que mudaria o rumo de sua existência. Ainda solteira, na década de 80, leu um anúncio no jornal Estado de Minas em que a esposa de um diplomata mineiro procurava uma empregada para acompanhar a família em seu novo posto no exterior. Quando chegou a Belo Horizonte para a entrevista, uma centena de candidatas já havia passado pelo crivo da patroa, mas foi Joana quem levou. “Ela agradou mais de mim”, conta, na construção típica da zona da mata mineira.
Em Atenas, Joana conheceu o marinheiro cabo-verdiano José Manoel da Graça, que trabalhava em um navio petroleiro. O namoro deslizava em mar de rosas, quando o patrão recebeu ordens do Itamaraty para se transferir para a Embaixada do Brasil no Chile. E lá se foi Joana D’Arc de volta para a América. Mas, com banzo de seu africano, em pouco tempo abandonava o emprego para voltar a sua odisseia grega. Amigou-se com Manoel em Atenas e teve com ele dois filhos: Daniel David e Marco Paulo.
Cinco anos depois, foi a saudade do Brasil que bateu e Joana embarcou de volta com os meninos. Primeiro, para Minas; depois, Brasília. Manoel foi navegar outros mares. “Fiquei esperando, porque ele nunca disse que não vinha. Os telefonemas foram rareando, só Natal, aniversário… E Manoel acabou não vindo”, dá de ombros. Hoje, é com a tormenta jurídica do caçula que ela se preocupa. “Sabe como é, a gente foi criada no negócio do ‘deixa pra lá’. Mas ele decidiu assim, entrego nas mãos de Deus.”
Em casa, o primogênito Daniel, hoje com 27 anos, é o voluntarioso e bem-humorado. Já Marco sempre foi introvertido e responsável. A mãe conta que, enquanto faxinava nas casas de família, o garoto dava um jeito de se enfurnar na biblioteca dos patrões. “Sempre foi menino de ler. Passava duas, três horas… eu até esquecia dele.” Daí a facilidade, talvez, com que passou em todos os testes que fez até hoje, inclusive o do Prouni – programa de bolsas de estudos do governo, que lhe permite cursar administração no Iesb.
Evangélico, como toda a família, Marco traz sempre a Bíblia debaixo do braço. E algum romance policial de Agatha Christie e Conan Doyle. Mas também passeou por leituras mais substanciosas, como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. “É uma aula de vida. Ele juntou todo o conhecimento de como se governar, lidar com as pessoas, a política e o poder. É muito útil para um administrador”, ensina o estagiário defenestrado do STJ.
Na melodia do Supremo
Outro dos talentos de Marco é a música. Na igreja, deu seus primeiros acordes. E logo conseguiu uma bolsa no tradicional Clube do Choro de Brasília, onde estuda violão de sete cordas. O professor, o instrumentista carioca Fernando César, de 40 anos, é só elogios: “Ele é um cara supertranquilo, aplicado e musical. Lê muito bem partitura”. Empreendedor precoce, escreveu e lançou em junho, por uma editora evangélica, um método de ensino de violão para os fiéis sem condições de pagar por um curso. Agora, ainda desempregado, dedica-se com mais afinco à execução de clássicos como Vou Vivendo, de Pixinguinha, cujos versos finais são: “Vou vivendo assim/ Porque o destino me fez um vadio/ Novo endereço ele vai traçar/ E virei para te avisar/ Quando à noite uma toalha de estrela/ Tiver para me cobrir”.
Mesmo apreensiva, Joana D’Arc não esconde o orgulho pela coragem do filho em enfrentar o presidente de uma das instituições mais poderosas do País. “Antes de ir para a Grécia eu era um bicho assustado. Achava que por ser negra e pobre era normal ser humilhada e maltratada. Mas lá, a gente entrava num restaurante ou em qualquer lugar chique e era recebido como todo mundo. Então, não deixei meus filhos crescerem com esse pensamento meu.”
Procurado pela reportagem do Aliás para dar sua versão dos fatos, o ministro Ari Pargendler disse por intermédio da assessoria que não vai se manifestar. No telefone da corte, em chamada de espera, ouve-se a seguinte mensagem: “Ter acesso rápido e fácil à Justiça é um direito seu. STJ, o Tribunal da Cidadania”.
fonte: Estadão
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
...diante dos Teus olhos...
“E, se você tiver feito isso, desejo saber da seguinte forma se você ama ao Senhor e a mim, servo dele e seu: que não exista no mundo irmão que tenha pecado – por mais que tenha pecado – que, depois de ter olhado nos seus olhos, possa partir sem a sua misericórdia, se estiver buscando misericórdia.
Que, se não estiver buscando misericórdia, seja você a perguntar se ele quer misericórdia; se ele pecar mil vezes diante dos seus olhos, que você o ame mais do que a mim de modo a atraí-lo para o Senhor; e que você estenda sempre misericórdia a irmãos como esse.”
S. Francisco de Assis, Carta ao irmão N. (1222)
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
"Estou na água, boiando. Do meu lado um garotinho de no máximo oito anos num longboard gigantesco passa rasgando, impulsionado por um empurrão de seu pai. Assim que ele se sente carregado pela onda, se levanta e fica de pé na prancha. Ao tentar se equilibrar, ele murmura, "Nossa! Nossa!!! Uau!!!" e ri, no auge da adrenalina por estar surfando. Escuto um amigo do pai orgulhoso comentar:
"Você acabou de acabar com qualquer possibilidade dele um dia se tornar presidente".
Trecho do livro Caught Inside: A Surfer's Year on the California Coast, Vi no Chasing the Lotus
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domingo, 11 de julho de 2010
Hustene chorou baixinho
Ao se deitar na noite de 28 de junho, Hustene Alves Pereira, mais conhecido pela família e amigos como Pankinha, chorou baixinho. Estava a dois dias de completar 51 anos e se sentia humilhado.
Para compreender o sentimento de Hustene, é preciso saber que espécie de homem ele é. Eu o encontrei pela primeira vez numa reportagem no início de 2002. O país era castigado pelo desemprego, e eu buscava um brasileiro que contasse este momento histórico pela vida, não pelas estatísticas. Um que estivesse no parapeito do abismo. Não quando acabamos de perder o emprego e a possibilidade de conseguir outro logo é uma promessa que quase tocamos com a mão. Nem aquele outro período, anos depois, em que a esperança já se foi e manter a cabeça erguida em cima do pescoço é um esforço grande demais.
Eu buscava o momento que me parece o mais trágico, quando percebemos que o abismo se descortina como vertigem e nos agarramos aos capins da borda conscientes de que não impedirão nossa queda. O instante em que os filhos começam a sustentar a casa sacrificando o próprio futuro, os produtos anunciados na televisão são para outros e nos escondemos durante o dia para ocultar dos vizinhos que não temos para onde ir. Quando descobrimos que não há lugar para nós no projeto do presente, que nossa vida é para a geração seguinte, reduzidos a gráficos que os especialistas explicam sem precisar manchar as mãos com nosso sangue.
Hustene vivia este exato instante. Continha nele todas as estatísticas, mas nele elas eram carne. Morava, como ainda mora, na periferia de Osasco, na Grande São Paulo, quatro filhos e uma mulher que ama. Numa casa de sala, cozinha e quarto, além do terraço e do banheiro, num terreno que divide com parentes. Quando o conheci, era um homem com brilho nos olhos, discurso articulado, esperneando contra todo um país que falhava com ele.
Tentava compensar os estudos que não pôde terminar lendo tudo o que lhe caía nas mãos e buscando na TV programas que pudessem lhe ensinar alguma coisa. Com um senso tão grande e tão particular de honestidade que preferia andar a pé dezenas de quilômetros por dia em busca de emprego a aceitar passagens de ônibus da prefeitura. Hustene achava que tudo que não ganhava com trabalho era esmola.
Acompanhei-o por um tempo em sua peregrinação, dividi com sua família o feijão que sua mulher, Estela, tornava saboroso com pouco além de um tempero que só podia ser amor. E depois que a reportagem foi publicada continuamos nos acompanhando mutuamente, às vezes perto, às vezes mais longe. Nos últimos oito anos testemunhei Hustene lutar pela sua vida de todos os modos, com uma força que quem o visse pela primeira vez não adivinharia naquele homem tão franzino. Lutando pela literalidade de sua vida que a precariedade do sistema público de saúde solapava, pela dignidade de sua vida sem a qual ele não admitia seguir existindo.
Se me perguntassem um dia o que para mim é mais triste testemunhar como repórter, como gente, eu diria que é o desperdício da vida humana. Não apenas pela morte em si, mas pela vida que não pôde se tornar tudo o que poderia ter sido. O desperdício do potencial de homens e mulheres. As tantas pessoas com uma capacidade extraordinária, mas que não tiveram as condições mínimas para desenvolvê-las. E, o pior, com a consciência do que poderiam ser se tivessem nascido em um país com uma desigualdade menos abissal que o Brasil. Vidas roubadas porque o Brasil está aquém de seus sonhos.
Hustene é um destes homens que sonhou mais com o país que o país com ele. E o Brasil foi triturando-o como o moinho da música famosa de Cartola. Nos mais de três anos em que ficou desempregado, apalpou o desespero sem cair no comportamento clássico de tantos. Não se embebedou em bares que não podia pagar, nem levantou a voz para a mulher ou bateu num filho. Em vez disso, desenhava e escrevia furiosamente em folhas de papel. Fazia bicos pagos aos trocados, carregando caixas enquanto uma bursite lhe arrancava lágrimas. Mas seguia acreditando na trindade em que havia assentado suas melhores esperanças: Che Guevara, Corinthians e Nossa Senhora de Fátima. E agarrado à sua carteira de trabalho. Ensinado que fora pelo pai, retirante nordestino, metalúrgico, que este é o documento mais importante na vida de um homem.
Quando já havia consumido todas as unhas para se manter agarrado às paredes do precipício, em 2005 Hustene conseguiu um emprego com carteira assinada e tornou-se o “porteiro Pereira”. Não era um trabalho à altura de sua capacidade, mas nunca, nunca mesmo, vi alguém tão feliz trabalhando por pouco mais que um salário mínimo. Às 4h20 da madrugada ele já estava dentro do primeiro ônibus, com um orgulho que só ele entendia, e cumpria turnos estafantes de 12 horas sem uma queixa. Hustene achava que tinha escalado o despenhadeiro. Mas em outubro do ano seguinte ele sentiu-se mal e Estela o levou ao posto de saúde. O médico garantiu que era “só” uma crise de diabetes e o despachou para casa, onde ao chegar ele teve um AVC (acidente vascular cerebral) que paralisou o lado esquerdo de seu corpo.
Hustene reaprendeu a falar e a andar. Em 14 de abril de 2008 estava tão ou mais feliz que nas vitórias históricas do Timão: tinha arriscado seus primeiros passos sem bengala. Mas em janeiro de 2009 teve o segundo AVC. Agora ele se desequilibra mais, a força lhe escapa, sente náuseas. Esquece dos acontecimentos recentes. Nem sempre se lembra de tomar água. É Estela quem precisa avisá-lo para tomar os 16 comprimidos do dia além das três doses de insulina com que tenta manter o diabetes mais ou menos domado. Com o segundo derrame também se apagou dentro dele o dom do desenho.
Mas Hustene não perdeu sua lucidez. Ele ainda segue escrevendo no computador que ganhou, em diários com papel e caneta, sem perder um documentário na TV. Tão honesto como sempre, em sua casa nunca admitiu nem mesmo os “gatos”, as ligações clandestinas de eletricidade, TV por assinatura, etc. Nem mesmo nos piores momentos, ele fraquejou em fazer a coisa certa. A honestidade, tão fácil para quem pertence às classes mais favorecidas, ainda que não muito praticada, para os da estirpe de Hustene é uma conquista arrancada de cada um dos dias. Com tudo o que é, apesar de tudo que lhe tomaram, Hustene continua acreditando. De sua trindade, mantém a crença em Nossa Senhora de Fátima e no Corinthians, esmoreceu um tanto de Che Guevara. Em nenhum momento perdeu a fé no Brasil.
Há um ano começou a perceber que sua visão piorava. Descobriu-se que ele tinha uma doença grave e degenerativa. Mas os exames demoravam, assim como o tratamento. Uma amiga pagou-lhe um médico particular para obter um diagnóstico preciso. O profissional alertou que era muito sério e não dava para esperar. Se não se tratasse logo, ficaria cego. Mas não havia dinheiro para tratamento privado. Hustene voltou ao sistema público de saúde.
Mais de seis meses se passaram enquanto ele ainda espera por tratamento. Agora testemunha a acelerada ruína de sua visão. Tento imaginar o tamanho da impotência e do pavor que é acompanhar dia após dia a corrosão dos olhos sem conseguir a assistência médica necessária, a mercê de um sistema em que cada exame crucial demora meses para ser feito e, quando a data da consulta médica finalmente chega, já é necessário fazer outro que levará mais alguns meses. Não alcanço.
Mas ainda não foi por isso que na noite de 28 de junho Hustene chorou baixinho ao se deitar, a dois dias de completar 51 anos. Naquela segunda-feira ele levou uma hora e 50 minutos até alcançar o posto do INSS. Era dia do jogo do Brasil X Chile. Trêmulo, instável, com náuseas e
enxergando mal, ele apresentava-se na hora marcada desde maio para que um perito comprovasse a necessidade de renovação do seu benefício. Nas mãos, Estela tinha os laudos médicos exigidos. Para cada um deles, uma correria, muitos ônibus e muita fila. Como se dissesse algo como “hoje não temos brioches, volte daqui a dois meses”, uma funcionária informou-lhe que os peritos estavam em greve. E remarcou a perícia para 19 de agosto.
enxergando mal, ele apresentava-se na hora marcada desde maio para que um perito comprovasse a necessidade de renovação do seu benefício. Nas mãos, Estela tinha os laudos médicos exigidos. Para cada um deles, uma correria, muitos ônibus e muita fila. Como se dissesse algo como “hoje não temos brioches, volte daqui a dois meses”, uma funcionária informou-lhe que os peritos estavam em greve. E remarcou a perícia para 19 de agosto.
Junto com outros desesperados, Hustene voltou para casa. Os laudos médicos perdem a validade em 30 dias, só servirão para virar lixo reciclável. Mais ônibus, novas filas, para que outros sejam feitos, dificultando ainda mais uma existência sofrida e sobrecarregando também um sistema já deficiente. Enquanto não passar pela perícia, Hustene nada ganha para sustentar sua família. Meses sem dinheiro para o supermercado e as contas. Era por isso que ele chorava. Pelo pouco caso com a sua vida, uma vida que lhe custa tanto manter dentro dele.
Não me cabe julgar se a greve dos peritos do INSS é justa ou não. O que posso afirmar é que a situação de Hustene e de todos como ele é injusta. O que escrevo não é um relato sobre um acontecimento pontual, mas sobre uma vida roubada aos poucos, de várias maneiras diferentes. Igual a de milhões nos percalços, diversa de todas.
Nos chocamos com a destruição causada pelas guerras declaradas, quando a vida de um povo está seguindo seu curso e de repente tudo acaba, tudo se perde, sonhos destroçados junto com braços, cabeças e pernas. Aqui escrevo sobre as guerras invisíveis, em que tantos ainda morrem sem alarde e bem mais perto, pela omissão do Estado e de todos nós, mesmo quando o país começa a melhorar alguns de seus índices e diminuir sua fome. O massacre silencioso e persistente que se desenrola à margem dos que podem pagar por saúde e educação de qualidade, dos que têm rede de proteção quando ficam desempregados e dos que ao serem desrespeitados em seus direitos sacam o iPhone e acionam seus advogados.
Há um país que morre aos poucos e a cada dia ao nosso redor. Ao contrário de Hustene, que perdeu a saúde e agora perde também a visão por descaso, que é condenado a meses sem dinheiro para sustentar a família pela força de uma única frase pronunciada por uma funcionária pública, nós enxergamos bem, mas escolhemos ser cegos. Para ele, porém, não existe esta opção. É sua a vida que escapa como água entre seus dedos. São seus os sonhos triturados. É sua tragédia tudo o que poderia ser – e não será apenas porque nasceu no lado errado do mundo.
Acho curioso quando especialistas de todo tipo transformam a miséria do outro em parâmetros lógicos. Nos gráficos e análises destes técnicos e acadêmicos tudo faz sentido e nada purga. Eu gostaria de saber como eles encarariam se fossem eles a não ter a chance de ser – e seus os filhos sem chances. Histórias como a de Hustene são tão corriqueiras que nem sequer viram notícia. Agonias como a dele acontecem sempre, é por isso mesmo que deveríamos nos indignar. Em vez disso, nos anestesiamos. Temos voz, mas preferimos calar.
Tenho 44 anos, muito e pouco, dependendo do ângulo de quem olha. O suficiente para testemunhar a perda de indignação que vem nos corrompendo. A impossibilidade cada vez maior de vestir a pele do outro. Tão confinados e com tanto medo dentro de nossa própria pele que a dor do outro é encarada como uma ameaça ao frágil equilíbrio de nosso mundo cada vez menor. Então nos escondemos no cinismo, que é a pele sintética dos covardes.
Se um dia Hustene ficar cego, sei que seus olhos ainda vão brilhar com a mesma febre. Eu não sei como ele faz, porque há nele uma sabedoria que não existe em mim. Mas ele resiste. Ainda que claudicante, sem forças, espoliado o tempo todo, ele me assegura que é feliz. Pergunto a ele como, por que, de que matéria é feita essa força que o faz levantar a cada rasteira, ainda que restando no chão em alguns pedaços. “Eu vejo meus filhos em casa nos fins de
semana, o riso da minha neta, ao meu lado a mulher que amo e que escolheria em quantas vidas tivesse. E há ainda uma viralatinha linda que eu cuido chamada Pantera. Nunca precisei visitar um filho na prisão porque eles são honestos como eu. Sei que para eles sou espelho. Vou seguir lutando. Acredito no meu país, ele já foi pior para os pobres, está melhorando.”
semana, o riso da minha neta, ao meu lado a mulher que amo e que escolheria em quantas vidas tivesse. E há ainda uma viralatinha linda que eu cuido chamada Pantera. Nunca precisei visitar um filho na prisão porque eles são honestos como eu. Sei que para eles sou espelho. Vou seguir lutando. Acredito no meu país, ele já foi pior para os pobres, está melhorando.”
Naquela noite, quando chorou baixinho, Hustene se sentia humilhado. Mas não só. Tinha dentro dele também revolta. Me escreveu para que sua voz me alcançasse e, através de mim, ele pudesse dizer que essa indiferença com a sua vida dói. Que essa indiferença pode matá-lo. E a morte para brasileiros como Hustene nunca vem como metáfora.
Depois, escreveu para dizer que segue acreditando. E lutando. E esperneando. Escreveu para dizer que não vai desistir de brigar pela vida.
fonte: Época
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domingo, 4 de julho de 2010
...essa noite a gente durmimo no quentinho...
Uma familia extremamente necessitada recebeu um presente anônimo às vésperas do inverno. Quem intermediou a ação foi uma enfermeira que conhecia as redondezas.
O volume foi entregue logo pela manhã, antes que a mãe saísse de casa e deixasse, como sempre, as três crianças pequenas trancadas no minúsculo cômodo em que viviam. Talvez não fosse a melhor opção, mas quem mora em uma área carente da Baixada Fluminense não pode se dar ao luxo de deixar os filhos soltos pelas ruas.
Em meio à surpresa matinal, os embrulhos foram abertos rapidamente pelos três. Havia pacotes coloridos com cobertores novos, brinquedos, pares de meias, chocolates. Chocolate era uma preciosidade para eles. A cada fita desenrolada, gritinhos de contentamento. A alegria se estendeu até a noite.
No dia seguinte, saindo de casa, a enfermeira bateu à portinha do barraco e olhou pela janelinha o rosto das crianças. O caçulinha, ainda deitado ao lado dos irmãos, já estava acordado. Seus grandes olhos de jabuticaba brilhavam enquanto passava as mãos vagarosamente pelo cobertor novo.
Ele levantou, chegou perto da janela e estendeu as mãos para a moça. Claro, ela não ia tirá-lo de lá, mas soprou um beijinho e perguntou do que ele mais tinha gostado: dos brinquedos ou dos chocolates?
Ele olhou com ternura para os irmãos adormecidos na única cama, dobrou os bracinhos e, sorrindo, respondeu baixinho:
- O que eu mais gostei é que essa noite ” a gente durmimo” no quentinho.
Quem ensinou esse garotinho que “a gente” é mais importante do que “eu”? Quem colocou tanto amor no seu coração, que preferiu sentir satisfação por terem dormido juntos, “no quentinho“, felizes, mesmo tendo outros presentes?
Quem?
fonte: Timilique!
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
Porque o Brasil vai perder (ou deveria) a Copa do Mundo
A seleção brasileira sacramentou a perda da Copa de 2010 durante a vitória de 3 a 1 sobre a Costa do Marfim. Parece incrível mas foi durante aqueles 90 minutos – no segundo confronto somente – que ficaram evidentes o despreparo para enfrentar situações adversas, a incompetência para gerir crises, a incapacidade para liderar subordinados, além do destempero e a incompetência para administrar as coisas do esporte.
Difícil acreditar que uma confederação – cinco vezes campeã do mundo – tenha escolhido tão mal uma comissão técnica. A começar pelo treinador que, logo no início da competição, se comportou como um torcedor alucinado – praticamente um “hooligan” – pronto para agredir e ofender quem quer que fosse e, ao mesmo tempo, incapaz de determinar os rumos do jogo contra um adversário – convenhamos – sem qualquer tradição e já derrotado.
Agitando-se à beira do campo como um touro de rodeio, aquele que deveria liderar e mover suas peças de acordo com as necessidades que o confronto exigisse deixou transparecer que não faz nem uma coisa nem outra – nem lidera nem move peças – uma vez que foi impedido pelo supervisor da CBF de substituir um nervosíssimo Kaká no instante em que o jogador era punido com um cartão amarelo. A expulsão do atleta viria cinco minutos depois.
Nesse instante cabem as perguntas: Se o treinador vive dizendo que manda na seleção como acatou a ordem de Américo Faria? Quem manda no time afinal?
Nesse instante cabem as perguntas: Se o treinador vive dizendo que manda na seleção como acatou a ordem de Américo Faria? Quem manda no time afinal?
Uma vez que o Comitê Disciplinar da Fifa não encontrou provas para abrir um processo contra o técnico brasileiro, é certo que a CBF as tem. E deveria seguir o que os franceses fizeram – embora a situação entre eles lá seja até mais grave.
Mas é preciso tomar medidas disciplinares contra alguém que ofende indiscriminadamente juízes, jogadores e jornalistas – neste último caso durante uma entrevista coletiva oficial, diante de câmeras e microfones do mundo inteiro. Para quem não sabe, o jornalista ofendido foi, no passado, comissário de bordo de avião de degredados e deportados – gente da pior espécie que viajava algemada. Não raro – como certa vez me contou – Alex Escobar ouvia ofensas e ameaças nos mais variados idiomas. Era fuzilado por olhares e caras feias. Presenciou diversos acessos de fúria de apátridas e terroristas. Ser chamado em português apenas de “cagão” – e outras bobagens – não o assustou mas, certamente, o surpreendeu.
Mas é preciso tomar medidas disciplinares contra alguém que ofende indiscriminadamente juízes, jogadores e jornalistas – neste último caso durante uma entrevista coletiva oficial, diante de câmeras e microfones do mundo inteiro. Para quem não sabe, o jornalista ofendido foi, no passado, comissário de bordo de avião de degredados e deportados – gente da pior espécie que viajava algemada. Não raro – como certa vez me contou – Alex Escobar ouvia ofensas e ameaças nos mais variados idiomas. Era fuzilado por olhares e caras feias. Presenciou diversos acessos de fúria de apátridas e terroristas. Ser chamado em português apenas de “cagão” – e outras bobagens – não o assustou mas, certamente, o surpreendeu.
É mesmo de causar espécie constatar que alguém tão autocentrado – e que enxergue a todos como inimigos – ocupe um cargo que requeira um mínimo de simpatia, inteligência emocional, equilíbrio, malandragem e jogo de cintura – também no trato com a imprensa. Impossível assistir a isso tudo sem citar o efeito positivo que Maradona causa nos argentinos em geral e em seus jogadores em particular. Suas entrevistas são carregadas de ironias e factóides inteligentes, de um patriotismo saudável – mesmo que sobrem alfinetadas para nós brasileiros de vez em quando – sempre com o objetivo de promover o espetáculo.
Carlos Alberto Parreira, por sua vez, tão educado quanto matreiro, transformou o interesse sul-africano pela bola numa grande paixão. Lidera uma seleção capaz de vencer a seleção francesa, por exemplo.
Carlos Alberto Parreira, por sua vez, tão educado quanto matreiro, transformou o interesse sul-africano pela bola numa grande paixão. Lidera uma seleção capaz de vencer a seleção francesa, por exemplo.
Está claro que não se pode ganhar todas as edições de Copas do Mundo – nós brasileiros não entendemos isso muito bem – mas a beleza do futebol é um pouco mais que o grito de gol, o toque bonito, o drible desconcertante ou a jogada de efeito. Está na elegância de respeitar os adversários, na festa apresentada no estádio ou nas ruas, no intercâmbio entre as culturas e – no caso dos treinadores – no trato educado com os jornalistas – que estudaram para fazer perguntas desconcertantes e buscar o contraditório.
Quanto ao nosso treinador, parece alguém transtornado por uma mania de perseguição – que acabou se tornando real por sua postura, sempre agressiva e arredia. Se ganhar a Copa fará disparos em todas as direções como o dono da verdade única e absoluta: o único campeão – a despeito da imprensa e dos brasileiros que adoram Ronaldinho e Neymar. Nota zero em maturidade emocional e educação. Quando esse moço aparecer de novo na TV vou tirar minha filha da sala.
Escrito por: Claudio Carneiro, no Opinião e Noticia
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terça-feira, 23 de março de 2010
Desapego
O matemático russo Grigory Perelman, 44, considerado um dos maiores gênios vivos do mundo, declarou ontem que não tem interesse em receber o prêmio de US$ 1 milhão a que tem direito por ter resolvido a chamada Conjectura de Poincaré.
Em seu apartamento infestado de baratas em São Petersburgo, Perelman afirmou, sem abrir a porta: “tenho tudo o que quero”, segundo informou o jornal britânico Daily Mail.
Na última semana, uma instituição dos Estados Unidos reconheceu que o estudioso russo demonstrou a Conjectura de Poincaré, que desafiava os matemáticos há mais de um século.
O matemático francês Jules Henri Poincaré (1854-1912) estimou que, de forma simplificada, qualquer espaço tridimensional sem furos seria equivalente a uma esfera esticada.
Poincaré e os matemáticos que vieram depois dele acreditavam que a proposta estaria correta, mas não conseguiram uma prova algébrica sólida para elevar a conjectura à categoria de teorema.
A complexidade do assunto levou o Instituto de Matemática de Clay a incluir o problema entre os “sete desafios do milênio”. Para cada desafio que fosse solucionado, o instituto prometeu pagar um prêmio de US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,78 milhão).
Na semana passada, James Carlson, diretor do instituto, reconheceu a façanha de Perelman e anunciou que a Conjuntura de Poincaré é o primeiro dos sete desafios a ter solução.
Morando com as baratas
A vizinha Vera Petrovna afirmou ao jornal britânico que já esteve no flat do matemático. “Ele tem apenas uma mesa, um banquinho e uma cama com um lençol sujo que foi deixado ali pelos antigos donos – uns bêbados que venderam o apartamento para ele”.
“Estamos tentando acabar com as baratas nesse quarteirão, mas elas se escondem na casa dele”, acrescentou.
Esse não é o primeiro prêmio esnobado por Perelman. Há quatro anos, ele não apareceu para receber a medalha Fields da União Internacional de Matemática.
Informações do Daily Mail, via UOL Notícias
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terça-feira, 16 de março de 2010
...eu choro a cada vez que perco um dia de surf...
Recomendo que voce assista esse video em um ambiente tranquilo, silencioso, em tela cheia e som alto.
Chorei pela primeira vez vendo surfe.
Não chorei pelo Michel, que voce verá surfando acima, chorei pelos meus dias perdidos de surfe.
Pelas minhas desculpas esfarrapadas.
Pelo tempo que deixei de passar n'água, pela perda do tempo.
Tive inveja da entrega ao mar, da areia no corpo dele, do carro bagunçado, da capacidade de se divertir.
Michael tem uma relação com ondas que eu não tenho.
O fato curioso é que ele escolheu justo o lugar onde, 30 anos antes, acidentou-se e perdeu os movimentos das pernas - onde ele mesmo diz não saber como evitar, um dos lugares que mais gosta de estar em todo mundo.
Hoje eu chorei pela primeira vez vendo surfe e minhas lagrimas nunca foram tão doces.
Desde que comecei a rabiscar algumas linhas nesse blog, NUNCA havia postado um vídeo.
Assista, e depois tire suas próprias conclusões sobre o porque de minha mudança de pensamento.
Eu vi aqui, e o texto é do Júlio Adler.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Ódio ao surfista
Toni Vilella, herói guarujaense.
Os metidos a locais e valentões deveriam se espelhar na postura de vida dele e no exemplo que nos deixou...
Em um portal designado a atender surfistas de todo Brasil, este título pode soar fora de contexto. Não está. Na verdade trata-se de um comunicado institucional, dirigido a todos nós, surfistas, simpatizantes, iniciantes e veteranos.
Mas gostaria de substituir a palavra “ódio”. Meu pai sempre disse que é um termo muito forte para ser usado sem certeza. Concordo e como ele tem mais moral, então substituiremos por “não suporto mais surfista”.
Há muito tempo digo isso em razão do meu desapontamento com a rapaziada. Estou perto dos 30 e surfo desde os 15 anos, quando herdei do meu irmão uma “Flor da Ilha”. Muita gente vai se identificar com este início, principalmente quem é aqui de Florianópolis (SC) e que conhece esta prancha.
Meu nível de surf está para “amigo da raça”. Vez ou outra sai uma batida, uma rasgada legal, uma penteada e raramente um tubinho para ganhar o dia, honestamente falando, pois sei bem a diferença entre uma penteada e uma boa “tubaca”, o que muitos não sabem.
Não sou local de nenhuma praia. Aqui, como a maioria, sempre surfei de acordo com as condições, o que faz muito local sair do seu pico para procurar coisa melhor. Para mim está mais para ‘‘deslocalismo’’.
Mas enfim, o localismo existe e deve ser levado a sério. Pelo menos no Atalaia, Itajaí, o único lugar que pude realmente constatar que haole não entra. Só lá! Ou alguém discorda? Em qualquer outro lugar forasteiros entram sim e ainda fazem a festa, ou são “arregados”.
Mas não é do localismo que quero falar e sim da atitude dos surfistas. Um dia destes um amigo que não é do surf me descreveu como invejava os surfistas: “Bixo, esta turma do surf dá um banho. Sempre na praia, tudo em forma, curtindo a natureza, relaxadão...”.
Relaxadão? Curtindo a natureza? Tive que interrompê-lo para dizer que ele não fazia ideia do que estava falando.
Expliquei que hoje em dia existe o localismo. Que em muitas praias surfistas não aceitam outros surfistas. Que o surfista, o garotão da praia, envolvido com a natureza, é no fundo um preconceituoso.
Expliquei que a indústria fabrica surfistas que nada entendem do esporte, que acham que basta tirar a calota do carro, encher de adesivo e amarelar o cabelo para entrar na água berrando, bicudo, sem respeito por nada.
Muitos dizem que não se trata de um esporte democrático. Estive no Rio meses atrás e vi dezenas de moleques da favela andando de prancha na mão, amarradões, sem vícios de marcas ou modismos, apenas curtindo o que as ondas oferecem.
Os metidos a locais e valentões deveriam se espelhar na postura de vida dele e no exemplo que nos deixou...
Em um portal designado a atender surfistas de todo Brasil, este título pode soar fora de contexto. Não está. Na verdade trata-se de um comunicado institucional, dirigido a todos nós, surfistas, simpatizantes, iniciantes e veteranos.
Mas gostaria de substituir a palavra “ódio”. Meu pai sempre disse que é um termo muito forte para ser usado sem certeza. Concordo e como ele tem mais moral, então substituiremos por “não suporto mais surfista”.
Há muito tempo digo isso em razão do meu desapontamento com a rapaziada. Estou perto dos 30 e surfo desde os 15 anos, quando herdei do meu irmão uma “Flor da Ilha”. Muita gente vai se identificar com este início, principalmente quem é aqui de Florianópolis (SC) e que conhece esta prancha.
Meu nível de surf está para “amigo da raça”. Vez ou outra sai uma batida, uma rasgada legal, uma penteada e raramente um tubinho para ganhar o dia, honestamente falando, pois sei bem a diferença entre uma penteada e uma boa “tubaca”, o que muitos não sabem.
Não sou local de nenhuma praia. Aqui, como a maioria, sempre surfei de acordo com as condições, o que faz muito local sair do seu pico para procurar coisa melhor. Para mim está mais para ‘‘deslocalismo’’.
Mas enfim, o localismo existe e deve ser levado a sério. Pelo menos no Atalaia, Itajaí, o único lugar que pude realmente constatar que haole não entra. Só lá! Ou alguém discorda? Em qualquer outro lugar forasteiros entram sim e ainda fazem a festa, ou são “arregados”.
Mas não é do localismo que quero falar e sim da atitude dos surfistas. Um dia destes um amigo que não é do surf me descreveu como invejava os surfistas: “Bixo, esta turma do surf dá um banho. Sempre na praia, tudo em forma, curtindo a natureza, relaxadão...”.
Relaxadão? Curtindo a natureza? Tive que interrompê-lo para dizer que ele não fazia ideia do que estava falando.
Expliquei que hoje em dia existe o localismo. Que em muitas praias surfistas não aceitam outros surfistas. Que o surfista, o garotão da praia, envolvido com a natureza, é no fundo um preconceituoso.
Expliquei que a indústria fabrica surfistas que nada entendem do esporte, que acham que basta tirar a calota do carro, encher de adesivo e amarelar o cabelo para entrar na água berrando, bicudo, sem respeito por nada.
Muitos dizem que não se trata de um esporte democrático. Estive no Rio meses atrás e vi dezenas de moleques da favela andando de prancha na mão, amarradões, sem vícios de marcas ou modismos, apenas curtindo o que as ondas oferecem.
O que se percebe atualmente é que no surf não existe o menor sentimento de companheirismo. Dentro d’água, o sentimento é competitivo e nada amistoso, como se cada onda perdida, pega por outro, despertasse o pior sentimento nos espectadores ali presentes.
Em uma pista de skate, crowdeada de profissionais e amadores, basta um qualquer executar bem uma manobra que soa o coro: “yeah!”. Aliás essa raça do skate sim dá um banho.
Tomar o exemplo desta galera não é difícil. Alguém já experimentou andar em uma pista cheia? Trombadas, skate dos outros “espirrando” na sua canela (o que machuca demais), porém nenhuma briga, xingamento.
E olha que nem o mar está ali para esfriar a cabeça. Acho que, inconscientemente, existe o respeito ao ser humano, ao desconhecido que está ali compartilhando a mesma experiência. Não vamos considerar como uma virtude o respeito, mas sim como algo essencial para a boa convivência, um acessório de fábrica.
Enfim, pode ser uma opinião bem pessoal. Uns podem se identificar e outros não. É capaz de ter gente me esperando com uma pedra na mão na minha próxima queda.
Queria ver a galera mais relaxada, menos tensão no mar, mais surf e menos desrespeito.
Que os iniciantes busquem entender os fundamentos do surf antes de entrar em um mar crowdeado. Procurem saber o que é preferência, que rabear não é legal, que o mar merece respeito.
E veteranos, vocês já foram iniciantes, tentem ser mais compreensivos e, ao invés de dar um esporro, ensinem, compartilhem experiências, auxiliem. Não é utopia. Pratiquem isso pelo menos uma vez e garanto que as próximas serão mais fáceis.
Costumo dizer que o surf se tornou um esporte ingrato, que estava me trazendo mais desilusões que alegrias. Até que ontem levei meu cunhado, portador da síndrome de down para surfar comigo.
E nele, deitado na prancha pegando uma espumera, eu vi a pureza do surf novamente.
Paz no surf galera!
Gabriel Longo, via Waves
Recomendo também a leitura dos comentários
Em uma pista de skate, crowdeada de profissionais e amadores, basta um qualquer executar bem uma manobra que soa o coro: “yeah!”. Aliás essa raça do skate sim dá um banho.
Tomar o exemplo desta galera não é difícil. Alguém já experimentou andar em uma pista cheia? Trombadas, skate dos outros “espirrando” na sua canela (o que machuca demais), porém nenhuma briga, xingamento.
E olha que nem o mar está ali para esfriar a cabeça. Acho que, inconscientemente, existe o respeito ao ser humano, ao desconhecido que está ali compartilhando a mesma experiência. Não vamos considerar como uma virtude o respeito, mas sim como algo essencial para a boa convivência, um acessório de fábrica.
Enfim, pode ser uma opinião bem pessoal. Uns podem se identificar e outros não. É capaz de ter gente me esperando com uma pedra na mão na minha próxima queda.
Queria ver a galera mais relaxada, menos tensão no mar, mais surf e menos desrespeito.
Que os iniciantes busquem entender os fundamentos do surf antes de entrar em um mar crowdeado. Procurem saber o que é preferência, que rabear não é legal, que o mar merece respeito.
E veteranos, vocês já foram iniciantes, tentem ser mais compreensivos e, ao invés de dar um esporro, ensinem, compartilhem experiências, auxiliem. Não é utopia. Pratiquem isso pelo menos uma vez e garanto que as próximas serão mais fáceis.
Costumo dizer que o surf se tornou um esporte ingrato, que estava me trazendo mais desilusões que alegrias. Até que ontem levei meu cunhado, portador da síndrome de down para surfar comigo.
E nele, deitado na prancha pegando uma espumera, eu vi a pureza do surf novamente.
Paz no surf galera!
Gabriel Longo, via Waves
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Que tal fazermos história?
A reação de narciso, técnico da equipe santista na Copa São Paulo de Futebol Júnior, ao tentar agredir o árbitro após a partida decisiva, exige uma reflexão. Principalmente por partir de quem possui uma história de vida cheia de percalços, de decepções e também da mais bela batalha a que um homem pode se dedicar, o resgate da saúde que lhe fugia às mãos.
Depois de sofrer com o aparecimento de uma leucemia que lhe tirou o trabalho e abalou os sonhos, e suplantá-la após um transplante de medula óssea, é incrível que ainda se porte
dessa forma. Parecia alguém que nunca passara por um problema dessa grandeza, alguém continuadamente exposto à ideologia dominante de que o sucesso, o desenvolvimentismo e o empreendedorismo são verdades inquestionáveis. Um claro exemplo da inquietação do homem atual que jamais se contenta com a simples satisfação dos seus desejos conscientes.
Se sentisse a vida como deveria, ele estaria mais que satisfeito de levar a sua equipe de garotos tão perto do cume com a possibilidade de se esbaldar nas lágrimas da vitória. E jamais se sentiria traído, caso esta efusão de felicidade fosse frustrada.
Quem já viu a morte de perto não deveria enfrentar os problemas humanos de forma rancorosa, emocional e agressiva como o técnico fez. E sim como uma honrosa derrota no jogo da vida, facilmente resgatável nos eventos que se seguirão, acompanhada de uma suave sensação de paz interior. Mas, não! O que vimos foi um homem ferido por nada. Perdido na sordidez da expectativa da vitória que não veio e desesperado por não ter conseguido o resultado que, pensava ele, recuperaria o tempo, os sonhos e a posição anterior como se esta fosse fundamental para sentir-se vivo.
Podemos entender parte do que se passa no mais puro sentimento humano quando este se encontra na sua posição e chega perto da glória. Antes de tudo temos de entender que suas iniciativas, inquietações e habilidades subjetivas podem ser passadas aos comandados, mas são estes que executarão a tarefa e realizarão os seus sonhos.
Será a subjetividade associada à impotência de não portar as armas que poderão produzir a vitória, de modo a torná-lo mais sensível aos parâmetros externos que podem influir no resultado final. Ainda que a sua estratégia tenha sido adequadamente empregada pelos jogadores. Imaginemos que tudo tenha sido corretamente analisado e que ele tenha capacitado sua equipe a obter um grau de excelência comprovado. E o resultado seja uma arte inquestionável e abundância de opções que deveriam levar seu time a ser superior ao adversário.
Desfrutaria, dessa forma, prazerosamente do sucesso com certa nostalgia, já que este mesmo sucesso gerencial o torna descartável e desnecessário – a equipe a partir de certo momento joga “por música”. Ou seja, não precisa mais de seu criador, do maestro que a dirigia.
Os homens sempre sonham em fazer história. Quando não conseguem, sucumbem. É o caso do técnico de futebol que tudo faz para ser o artista ou mais que ele e, no entanto, desaparece nos descaminhos da história por não fazer sentido homenagear quem está longe do palco. Não impõe a sua arte e não expõe o seu talento por não chegar aos olhos da sociedade que ele mesmo criou. E essa contradição o corrói absurdamente, levando-o a comportamentos desequilibrados.
O sucesso depende da ação do homem, cuja motivação básica é o desejo de poder. Contudo, neste caso o poder se dilui em cada atleta, onde encontramos suficiente e precoce segurança econômica que o liberta do comando; que acaba se tornando secundário na plena expressão social. Inconsciente, é verdade, pois mesmo desorganizadamente continua a prevalecer a tentativa de impedir a transmissão de poder à nova geração, ainda que de modo mais ameno e menos arrogante.
De outra forma, nunca é demais lembrar as pressões que todos sofremos em nosso cotidiano, já que onde há um processo, esportivo que seja, existe um sentimento dominante de que todas as pessoas e instituições que foram capazes e/ou inovadores em determinado momento se tornarão em seguida ultrapassados.
Uma terrível pressão para a nossa eterna reconstrução e não sermos descartados. E quando temos consciência das nossas limitações, vemos somente a vitória ocasional e transitória como a única saída.
Sócrates, ex-jogador de futebol, comentarista e colunista de Carta Capital. Uma das excessões quando se fala de jogadores de futebol, que geralmente são ótimos com as bola nos pés e péssimos fora de campo. Via Carta Capital
Depois de sofrer com o aparecimento de uma leucemia que lhe tirou o trabalho e abalou os sonhos, e suplantá-la após um transplante de medula óssea, é incrível que ainda se porte
dessa forma. Parecia alguém que nunca passara por um problema dessa grandeza, alguém continuadamente exposto à ideologia dominante de que o sucesso, o desenvolvimentismo e o empreendedorismo são verdades inquestionáveis. Um claro exemplo da inquietação do homem atual que jamais se contenta com a simples satisfação dos seus desejos conscientes.
Se sentisse a vida como deveria, ele estaria mais que satisfeito de levar a sua equipe de garotos tão perto do cume com a possibilidade de se esbaldar nas lágrimas da vitória. E jamais se sentiria traído, caso esta efusão de felicidade fosse frustrada.
Quem já viu a morte de perto não deveria enfrentar os problemas humanos de forma rancorosa, emocional e agressiva como o técnico fez. E sim como uma honrosa derrota no jogo da vida, facilmente resgatável nos eventos que se seguirão, acompanhada de uma suave sensação de paz interior. Mas, não! O que vimos foi um homem ferido por nada. Perdido na sordidez da expectativa da vitória que não veio e desesperado por não ter conseguido o resultado que, pensava ele, recuperaria o tempo, os sonhos e a posição anterior como se esta fosse fundamental para sentir-se vivo.
Podemos entender parte do que se passa no mais puro sentimento humano quando este se encontra na sua posição e chega perto da glória. Antes de tudo temos de entender que suas iniciativas, inquietações e habilidades subjetivas podem ser passadas aos comandados, mas são estes que executarão a tarefa e realizarão os seus sonhos.
Será a subjetividade associada à impotência de não portar as armas que poderão produzir a vitória, de modo a torná-lo mais sensível aos parâmetros externos que podem influir no resultado final. Ainda que a sua estratégia tenha sido adequadamente empregada pelos jogadores. Imaginemos que tudo tenha sido corretamente analisado e que ele tenha capacitado sua equipe a obter um grau de excelência comprovado. E o resultado seja uma arte inquestionável e abundância de opções que deveriam levar seu time a ser superior ao adversário.
Desfrutaria, dessa forma, prazerosamente do sucesso com certa nostalgia, já que este mesmo sucesso gerencial o torna descartável e desnecessário – a equipe a partir de certo momento joga “por música”. Ou seja, não precisa mais de seu criador, do maestro que a dirigia.
Os homens sempre sonham em fazer história. Quando não conseguem, sucumbem. É o caso do técnico de futebol que tudo faz para ser o artista ou mais que ele e, no entanto, desaparece nos descaminhos da história por não fazer sentido homenagear quem está longe do palco. Não impõe a sua arte e não expõe o seu talento por não chegar aos olhos da sociedade que ele mesmo criou. E essa contradição o corrói absurdamente, levando-o a comportamentos desequilibrados.
O sucesso depende da ação do homem, cuja motivação básica é o desejo de poder. Contudo, neste caso o poder se dilui em cada atleta, onde encontramos suficiente e precoce segurança econômica que o liberta do comando; que acaba se tornando secundário na plena expressão social. Inconsciente, é verdade, pois mesmo desorganizadamente continua a prevalecer a tentativa de impedir a transmissão de poder à nova geração, ainda que de modo mais ameno e menos arrogante.
De outra forma, nunca é demais lembrar as pressões que todos sofremos em nosso cotidiano, já que onde há um processo, esportivo que seja, existe um sentimento dominante de que todas as pessoas e instituições que foram capazes e/ou inovadores em determinado momento se tornarão em seguida ultrapassados.
Uma terrível pressão para a nossa eterna reconstrução e não sermos descartados. E quando temos consciência das nossas limitações, vemos somente a vitória ocasional e transitória como a única saída.
Sócrates, ex-jogador de futebol, comentarista e colunista de Carta Capital. Uma das excessões quando se fala de jogadores de futebol, que geralmente são ótimos com as bola nos pés e péssimos fora de campo. Via Carta Capital
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Meu vício é você...
"Be careful if you love to surf. It's highly addictive. It's the only drug I know of that, when taken, 'just once more' will add years to your life."
- Bill Hamilton (50-year unrepentant surf addict)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
...filosofando!
Se alguém me perguntar quando comecei a sentir a minha vida mais interessante, eu tenho a resposta na ponta da língua: quando comecei a me interessar mais por mim. A ser mais gentil comigo. A dar menos espaço ao que não tem importância e a respeitar o tamanho do que, de fato, me importa. A querer me conhecer melhor. A ter bem menos pressa pra chegar sei lá onde. A apurar o ouvido pra sentir a música das coisas mais simples, que cantam bonito e muitas vezes baixinho. Quando comecei a me enjoar da mania de tentar entender tanto e abri o coração para apreciar mais. Quando comecei a buscar conforto em estar na minha companhia.
Às vezes, ao acordar, eu me olho no espelho e me digo: Vamos lá, fazer o melhor que a gente puder desse dia. Eu estou com você. De uns tempos pra cá, não é que tem sido verdade?
Copiado descaradamente de um perfil do Orkut. (hahaha)
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terça-feira, 11 de agosto de 2009
Os Sem Diplomas
“O diploma é o inimigo mortal da cultura.”
Paul Valéry
O mundo permanece estarrecido e perplexo diante de instituições de ensino que excluem de seu quadro de professores os únicos que “se formaram” para estar lá: os práticos. Que não tiveram muito tempo para se preocuparem com mestrados e doutorados porque estavam atolados no barro do mercado, com suas roupas sujas de graxa, com a barriga marcada pelo balcão. Os únicos a deterem, verdadeiramente, o conhecimento. Os que estudaram na melhor de todas as universidades: a vida.
Assim, foi com alegria e emoção que os que acreditam que só pode ensinar quem sabe fazer, como orientou o maior dos mestres, Peter Drucker, que testemunhamos há dois anos a centenária Universidade de Harvard diplomar, como um de seus melhores alunos de todos os tempos, um dos que optou pelo trabalho em detrimento dos livros: Bill Gates. Cursou apenas o primeiro ano, jogou os livros para cima e foi cuidar da vida.
Nada contra os diplomas. Tudo a favor da prática; tão simples quanto. O mesmo espírito que sempre prevaleceu nas velhas e sábias corporações de ofício. Onde, em torno de uma mesma bancada, se sentavam para aprender, trabalhando, o mestre e seus discípulos. Essa, em meu entendimento, continua sendo a verdadeira escola; a única escola. A maneira como começou há décadas, na Rua Sete de Abril na cidade de São Paulo, a Escola Superior de Propaganda.
Ao lado de Bill Gates, na relação dos sem diplomas, figuram Amador Aguiar, Samuel Klein, Washington Olivetto, Luiz Seabra, Abraão Kasinski e centenas e centenas de vencedores. Que entre assistir a aulas de grandes mestres que se formaram nos ambientes insípidos, inodoros, irrelevantes e improdutivos das universidades optaram por utilizar o mesmo tempo nos chãos de fábrica da vida e da realidade, corpo a corpo com os operários da e em construção.
Recentemente, em entrevista ao The Wall Street Journal, William Gates pai falou sobre Bill, William Gates filho. Hoje os dois trabalham lado a lado na Fundação Bill e Melinda Gates: “Jamais poderia imaginar que meu filho, um garoto respondão e em quem um dia joguei um copo d’água na mesa de refeição para que ficasse quieto e parasse de brigar com a mãe, que morou na minha casa, comeu da minha comida, usa meu nome, fosse ser meu patrão”... “Um dia ele nos comunicou que desistira de Harvard e das escolas para se concentrar em seu projeto empresarial, em Albuquerque, Novo México, uma empresa que batizou de Microsoft; disse que não tinha mais tempo a perder...”.
Tudo o mais é história.
Quem vos escreve, além de colaborador do Propaganda e Marketing há 38 anos, Francisco Alberto Madia de Souza é diretor-presidente do MadiaMundoMarketing, presidente da Academia Brasileira de Marketing e com muito orgulho e maior felicidade, fundador de uma escola livre para ensinar, a MadiaMarketing School, onde todos os professores são diplomados pela vida, dão aulas de macacão sujo de graxa, com botas gastas e cheias de barro, e a cintura marcada por anos de balcão.
Francisco A. Madia, no Propaganda & Marketing.
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domingo, 22 de fevereiro de 2009
Em off
Qualquer canção de amor
É uma canção de amor
Não faz brotar amor e amantes
Porém, se esta canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor e antes
Chico Buarque *
Muito gostei de ouvir a música gospel dos corais e cantores negro-norte-americanos. Na minha estante, alguns nomes contam essa história. Lá, empoeirados, estão Fred Hammond, Yolanda Adams, Kirk Franklin, Bebe e Cece Winams, Mount Moriah Mass Choir, The Brooklyn Tabernacle Choir, entre outros. Nessa época, para mim, cantar bem tinha a ver com a gritaria, com o estardalhaço, com o virtuosismo, com a pedância em repetir um mesmo estribilho. Bons foram aqueles tempos, mas já passaram.
Em seguida tive a fase, digamos, mais branquela. Cristal Lewis e Sandi Patti eram ícones. Outra vez a gritaria reinava, essencialmente com a Patti cantando a enlouquecida Via dolorosa. Era coisa de cortar os pulsos, o que sempre me deu medo. Por sorte não havia armas em casa.
Na seqüência, descobri o worship. Outra febre. Comecei ouvindo o sóbrio Joseph L. Carlington; passei pelo Don Moen e seu Celebrate, não esqueci o Kenoly nem a versão tupiniquim representada pelo Adhemar de Campos. Nessa mesma época, tudo o que se fazia na América e se traduzia por aqui era como se tivesse caído direto do céu.
Depois foi o rock cristão. A sina da cópia foi a mesma já relatada. A linguagem da América era como se fosse a língua dos anjos.
Minha incursão pela literatura cristã percorreu o mesmo caminho. Caminho estúpido. Lembro-me do medo causado por um livro no qual se chamava Mikail Gorbachev de anticristo. Li Steven Lawson, Benny Hinn; Rebecca Brown, entre outras tristes pérolas. Dentre as minhas atuais decepções está o Max Lucado.
Minha vida mudou completamente. Hoje, aos trinta e quatro anos, sou completamente diferente dos que só me conheceram nos anos oitenta ou noventa.
Qualquer canção de bem
algum mistério tem
É o grão, é o germe, é o gen da chama
E essa canção também
Corrói, como convém,
O coração de quem não ama.
Chico Buarque
De repente eu, que fui tão protegido do mundo, descubro o mundo. Que mundo maravilhoso. Descobri que havia MAIS perto de mim do que a minha vã filosofia, do que a minha pouca visão de mundo. Na medida em que começava a incomodar o norte-americanismo, começava a conhecer o Brasil. Conheci o Grupo Logos, o Milad, o Sinal de Alerta, o Rebanhão (que alguns idiotas insistiam na mensagem subliminar). O Sergio Pimenta, o João Alexandre, o Jorge Camargo. Opa, isso tudo feito por crentes? Estarrecedoramente a resposta era sim. Na escrita, descobri o Paulo Romeiro, o Ricardo Gondim, entre outros ousados.
Adiante na minha criticidade, comecei a desconfiar dos que falavam mal do Renato Russo (não só por sua opção sexual) e do Raul Seixas. Fui ouví-los. Que bênção! Que descoberta ótima.
Passei a desconfiar dos discursos igrejeiros que ouvia.
Casei. Fui para a faculdade. Tornei-me professor. Adquiri casa própria. Aumentei consideravelmente meu leque de leituras e audições musicais. Descobri autores não cristãos: Kafka, Saramago, Dostoiévski, Graciliano, Cony, Lispector, Machado, Cecília, Adélia. Conheci outros tons: Zé Keti, Lupicínio (meu conterrâneo), Elis, Chico (nem precisava dizer), Teresa Cristina; Madonna, M. Jackson, George Michael, Lauryn Hill, Nirvana – entre muitos e muitos outros. Encontrei-me com os escritores do mal e com a música mais underground. Começava a entender por que as instituições religiosas odiavam alguns desses que acabei de citar. Percebi que as amizades – dentro ou fora da instituição – continuavam intocadas. Notei que Deus não me abandonara. Observei que “a língua dos anjos” estava mais para inglês do que espanhol ou português e que, apesar disso, Deus estava firme e imutável em se revelar pra mim via Borges, Márquez, Neruda.
Lendo ou ouvindo os nomes recém citados era-me (e ainda é) perceptível uma nuance do divino, de estética.
Passei a desconfiar ainda mais dos discursos igrejeiros que ouço. O que fazer? Tomar decisões.
Porém ainda é melhor
Sofrer em dó menor
Do que você sofrer calado.
Chico Buarque
Na idade em que estou acho que posso usufruir de alguns luxos. E assumo-os com possíveis riscos que daí advenham – inclusive o de 'torrar' no inferno.
Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou
Chico Buarque
Pelo menos por hora, desisti de ficar 'perdendo tempo' discutindo doutrina, visão de igreja, de denominação ou, pior, minha cosmovisão cristã. A razão é que, em geral, quem se envereda nesse caminho quer me convencer de que estou errado, de que tenho de mudar. Portanto, o que penso sobre cristianismo penso e pronto; meu pensamento é o “de experiência feito” - no dizer do mestre educador Paulo Freire**. Continuando com ele, preciso imediatamente dizer que cheguei num ponto da vida em que “a minha fé não me faz cínico, ela me faz indignado”. Mas não uma indignação acrítica.
Desisti de ter pressa. Agora moro numa cidade mais tranqüila, ando mais a pé. Se perco um ônibus espero o próximo ouvindo música ou lendo um livro. A correria só aumenta meus batimentos cardíacos. Pobre, levei treze anos para adquirir a casa própria; só agora serei pai. Cansei de esperar ansiosamente a volta de Cristo. Quero que Ele venha, mas sem pressa. Enquanto isso, fico por aqui, às vezes brincando, às vezes tentando crescer, às vezes tentando melhorar o mundo. Desisti de salvá-lo.
Desisti de ouvir rádio e olhar programas de televisão cristãos. Na verdade, tenho fugido de tudo que tenha a palavra gospel ou cristã. Não quero enriquecer nenhum líder de qualquer coisa em nome da obra de Deus. Tampouco ficar ouvindo receitas de como receber mais de Deus, como ser desesperado por Ele, apaixonado por Ele. Estou de saco cheio de tirar o pé do chão sem cair. Chega dessa palhaçada. Prefiro ler os chatos Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki a ouvir um sermão baseado muito mais neles do que na sempre ótima Bíblia. Lair e Roberto pelo menos sabem fazer o que fazem. Os 'preletores' são como vacas, ficam ruminando para, depois, regurgitar na boca de uma massa preguiçosa.
Desisti de entrar em livrarias evangélicas. Prefiro a Livraria Cultura, a Saraiva. Não é pelo marketing mas, sim, pela possibilidade de comprar uma obra melhor. Entre ouvir o Michael Smith e o Toque no Altar cantando a chata “Faz chover” prefiro as múltiplas versões da linda “Ave Maria no morro”. Tem muito mais a ver com a minha vida, com o meu cheiro, com a terra na qual Deus me permitiu nascer. Ocorre que a Ave Maria no morro não foi feita no norte, mas no sul. Então parece – para alguns – mais feia, menos divina. Pra mim não.
Desisti, por essas e outras, de 'bater o ponto' num templo. Tenho optado por compartilhar da vida com os poucos amigos. Tomar um belo café com minha mulher (de quem não sou dono) e futura mamãe. Dar um passeio pela rua ouvindo o canto dos pássaros. Ouvir um Zeca Baleiro, um Baden Powell, um gaudério como Vitor Ramil ou os conterrâneos César Oliveira e Rogério Melo. Tem sido maravilhoso descobrir As cidades invisíveis, do outro Calvino. Tenho refletido quando canto o Hino Rio-Grandense. E tem sido muito desafiador demonstrar Cristo tanto para os meus alunos da EJA como para os meus vizinhos. Ser sal num lugar onde a igreja tem sido açucar não é fácil. Desvencilhei-me. Basta de instituição.
Desisti de ter medo de Deus. Não é isso que Ele quer de mim. Ele quer que eu seja eu.
Já não tenho medo do inferno (o que é esse mundo muitas vezes?). Também não fico ruborizado quando me dizem que “Deus vai cobrar”. Muito menos sigo os conselhos dos legalistas de plantão, aqueles que se acham maduros demais na fé ou que já alcançaram um certo patamar de santificação espiritual que estão de “corpo fechado”. Ignoro os tapadores de furos, aqueles que se acham a espuma das brechas (abriu a brecha?).
Deixem-me viver em paz e escrever o que bem quiser.
Ah, estou bem. Amo a mulher que tenho e a criança que estará conosco lá pelo final de abril/2009. E porque sou humano sou imperfeito, tenho relacionamentos a melhorar; sou cheio de defeitos. Sou chato, tenho um jeito ranzinza.
Mas tenho uma certeza que me conforta: não há nada que eu possa fazer para que Deus me ame mais, ou menos. Essa é a razão de eu estar vivo. Ele me ama!!!
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou
Chico Buarque
* As citações do Chico Buarque são das maravilhosas músicas “Qualquer canção” e “Já passou”.
** FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Araújo Freire (org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.
Levi Nauter, via Pavablog
É uma canção de amor
Não faz brotar amor e amantes
Porém, se esta canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor e antes
Chico Buarque *
Muito gostei de ouvir a música gospel dos corais e cantores negro-norte-americanos. Na minha estante, alguns nomes contam essa história. Lá, empoeirados, estão Fred Hammond, Yolanda Adams, Kirk Franklin, Bebe e Cece Winams, Mount Moriah Mass Choir, The Brooklyn Tabernacle Choir, entre outros. Nessa época, para mim, cantar bem tinha a ver com a gritaria, com o estardalhaço, com o virtuosismo, com a pedância em repetir um mesmo estribilho. Bons foram aqueles tempos, mas já passaram.
Em seguida tive a fase, digamos, mais branquela. Cristal Lewis e Sandi Patti eram ícones. Outra vez a gritaria reinava, essencialmente com a Patti cantando a enlouquecida Via dolorosa. Era coisa de cortar os pulsos, o que sempre me deu medo. Por sorte não havia armas em casa.
Na seqüência, descobri o worship. Outra febre. Comecei ouvindo o sóbrio Joseph L. Carlington; passei pelo Don Moen e seu Celebrate, não esqueci o Kenoly nem a versão tupiniquim representada pelo Adhemar de Campos. Nessa mesma época, tudo o que se fazia na América e se traduzia por aqui era como se tivesse caído direto do céu.
Depois foi o rock cristão. A sina da cópia foi a mesma já relatada. A linguagem da América era como se fosse a língua dos anjos.
Minha incursão pela literatura cristã percorreu o mesmo caminho. Caminho estúpido. Lembro-me do medo causado por um livro no qual se chamava Mikail Gorbachev de anticristo. Li Steven Lawson, Benny Hinn; Rebecca Brown, entre outras tristes pérolas. Dentre as minhas atuais decepções está o Max Lucado.
Minha vida mudou completamente. Hoje, aos trinta e quatro anos, sou completamente diferente dos que só me conheceram nos anos oitenta ou noventa.
Qualquer canção de bem
algum mistério tem
É o grão, é o germe, é o gen da chama
E essa canção também
Corrói, como convém,
O coração de quem não ama.
Chico Buarque
De repente eu, que fui tão protegido do mundo, descubro o mundo. Que mundo maravilhoso. Descobri que havia MAIS perto de mim do que a minha vã filosofia, do que a minha pouca visão de mundo. Na medida em que começava a incomodar o norte-americanismo, começava a conhecer o Brasil. Conheci o Grupo Logos, o Milad, o Sinal de Alerta, o Rebanhão (que alguns idiotas insistiam na mensagem subliminar). O Sergio Pimenta, o João Alexandre, o Jorge Camargo. Opa, isso tudo feito por crentes? Estarrecedoramente a resposta era sim. Na escrita, descobri o Paulo Romeiro, o Ricardo Gondim, entre outros ousados.
Adiante na minha criticidade, comecei a desconfiar dos que falavam mal do Renato Russo (não só por sua opção sexual) e do Raul Seixas. Fui ouví-los. Que bênção! Que descoberta ótima.
Passei a desconfiar dos discursos igrejeiros que ouvia.
Casei. Fui para a faculdade. Tornei-me professor. Adquiri casa própria. Aumentei consideravelmente meu leque de leituras e audições musicais. Descobri autores não cristãos: Kafka, Saramago, Dostoiévski, Graciliano, Cony, Lispector, Machado, Cecília, Adélia. Conheci outros tons: Zé Keti, Lupicínio (meu conterrâneo), Elis, Chico (nem precisava dizer), Teresa Cristina; Madonna, M. Jackson, George Michael, Lauryn Hill, Nirvana – entre muitos e muitos outros. Encontrei-me com os escritores do mal e com a música mais underground. Começava a entender por que as instituições religiosas odiavam alguns desses que acabei de citar. Percebi que as amizades – dentro ou fora da instituição – continuavam intocadas. Notei que Deus não me abandonara. Observei que “a língua dos anjos” estava mais para inglês do que espanhol ou português e que, apesar disso, Deus estava firme e imutável em se revelar pra mim via Borges, Márquez, Neruda.
Lendo ou ouvindo os nomes recém citados era-me (e ainda é) perceptível uma nuance do divino, de estética.
Passei a desconfiar ainda mais dos discursos igrejeiros que ouço. O que fazer? Tomar decisões.
Porém ainda é melhor
Sofrer em dó menor
Do que você sofrer calado.
Chico Buarque
Na idade em que estou acho que posso usufruir de alguns luxos. E assumo-os com possíveis riscos que daí advenham – inclusive o de 'torrar' no inferno.
Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou
Chico Buarque
Pelo menos por hora, desisti de ficar 'perdendo tempo' discutindo doutrina, visão de igreja, de denominação ou, pior, minha cosmovisão cristã. A razão é que, em geral, quem se envereda nesse caminho quer me convencer de que estou errado, de que tenho de mudar. Portanto, o que penso sobre cristianismo penso e pronto; meu pensamento é o “de experiência feito” - no dizer do mestre educador Paulo Freire**. Continuando com ele, preciso imediatamente dizer que cheguei num ponto da vida em que “a minha fé não me faz cínico, ela me faz indignado”. Mas não uma indignação acrítica.
Desisti de ter pressa. Agora moro numa cidade mais tranqüila, ando mais a pé. Se perco um ônibus espero o próximo ouvindo música ou lendo um livro. A correria só aumenta meus batimentos cardíacos. Pobre, levei treze anos para adquirir a casa própria; só agora serei pai. Cansei de esperar ansiosamente a volta de Cristo. Quero que Ele venha, mas sem pressa. Enquanto isso, fico por aqui, às vezes brincando, às vezes tentando crescer, às vezes tentando melhorar o mundo. Desisti de salvá-lo.
Desisti de ouvir rádio e olhar programas de televisão cristãos. Na verdade, tenho fugido de tudo que tenha a palavra gospel ou cristã. Não quero enriquecer nenhum líder de qualquer coisa em nome da obra de Deus. Tampouco ficar ouvindo receitas de como receber mais de Deus, como ser desesperado por Ele, apaixonado por Ele. Estou de saco cheio de tirar o pé do chão sem cair. Chega dessa palhaçada. Prefiro ler os chatos Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki a ouvir um sermão baseado muito mais neles do que na sempre ótima Bíblia. Lair e Roberto pelo menos sabem fazer o que fazem. Os 'preletores' são como vacas, ficam ruminando para, depois, regurgitar na boca de uma massa preguiçosa.
Desisti de entrar em livrarias evangélicas. Prefiro a Livraria Cultura, a Saraiva. Não é pelo marketing mas, sim, pela possibilidade de comprar uma obra melhor. Entre ouvir o Michael Smith e o Toque no Altar cantando a chata “Faz chover” prefiro as múltiplas versões da linda “Ave Maria no morro”. Tem muito mais a ver com a minha vida, com o meu cheiro, com a terra na qual Deus me permitiu nascer. Ocorre que a Ave Maria no morro não foi feita no norte, mas no sul. Então parece – para alguns – mais feia, menos divina. Pra mim não.
Desisti, por essas e outras, de 'bater o ponto' num templo. Tenho optado por compartilhar da vida com os poucos amigos. Tomar um belo café com minha mulher (de quem não sou dono) e futura mamãe. Dar um passeio pela rua ouvindo o canto dos pássaros. Ouvir um Zeca Baleiro, um Baden Powell, um gaudério como Vitor Ramil ou os conterrâneos César Oliveira e Rogério Melo. Tem sido maravilhoso descobrir As cidades invisíveis, do outro Calvino. Tenho refletido quando canto o Hino Rio-Grandense. E tem sido muito desafiador demonstrar Cristo tanto para os meus alunos da EJA como para os meus vizinhos. Ser sal num lugar onde a igreja tem sido açucar não é fácil. Desvencilhei-me. Basta de instituição.
Desisti de ter medo de Deus. Não é isso que Ele quer de mim. Ele quer que eu seja eu.
Já não tenho medo do inferno (o que é esse mundo muitas vezes?). Também não fico ruborizado quando me dizem que “Deus vai cobrar”. Muito menos sigo os conselhos dos legalistas de plantão, aqueles que se acham maduros demais na fé ou que já alcançaram um certo patamar de santificação espiritual que estão de “corpo fechado”. Ignoro os tapadores de furos, aqueles que se acham a espuma das brechas (abriu a brecha?).
Deixem-me viver em paz e escrever o que bem quiser.
Ah, estou bem. Amo a mulher que tenho e a criança que estará conosco lá pelo final de abril/2009. E porque sou humano sou imperfeito, tenho relacionamentos a melhorar; sou cheio de defeitos. Sou chato, tenho um jeito ranzinza.
Mas tenho uma certeza que me conforta: não há nada que eu possa fazer para que Deus me ame mais, ou menos. Essa é a razão de eu estar vivo. Ele me ama!!!
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou
Chico Buarque
* As citações do Chico Buarque são das maravilhosas músicas “Qualquer canção” e “Já passou”.
** FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Araújo Freire (org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.
Levi Nauter, via Pavablog
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sábado, 10 de janeiro de 2009
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Literatura é briga de rua.
Alguns autores andam de canivete, outros com garrafa quebrada.
Entro no texto com o bolso cheio de pedras. Vou esvaziando com o cansaço.
Para escrever, procuro sempre em pensamento a companhia de um tímido.
Ao lado dele, estou bem protegido. O tímido é o único audacioso que existe.
Fiel como um gato com almofada, um cachorro com osso. Não muda de opinião para agradar. Tem a arte marcial das poucas palavras.
Ele não ataca, explode.
O irmão Miguel é meu tímido preferido. Suave e tranqüilo; não merecia nascer numa família excessivamente escandalosa como a nossa. Não grita em público, não canta no chuveiro, não assovia, muito menos se enerva com barbeiragem no trânsito.
Diz obrigado mesmo quando faz um favor. Agradece a si. Não é para menos que se tornou juiz. Seu silêncio já surgia adulto antes de caminhar.
Na escola, nunca arrumou briga, ao contrário do Rodrigo que se engalfinhou em socos e pontapés com um colega durante três recreios consecutivos (foi a maior luta de boxe do colégio Imperatriz Leopoldina) e de mim, que cuspia e cotovelava os oponentes nos jogos de futebol.
Ele nunca perdeu a postura até que um dia alguém de sua turma insinuou que a nossa mãe era uma piranha porque estava separada. Isso que minha mãe nunca mais casou ou namorou após o divórcio.
Com respeitosa mudez, pediu que não me mexesse, deu dois passos para perto da figura insolente, um menino ruivo, como se fosse cumprimentá-lo. Fiquei espantado com sua diplomacia de guerra. De onde tirou o sangue-frio? Chegou rente aos seus ombros e disparou algo em seu ouvido. Não consegui entender, ninguém escutou.
O troglodita de espinhas fechou a boca, resmungou um lamento de gaita e desandou a chorar.
Chorava e se desculpava compulsivamente.
Sem nenhum empurrão e gancho, sem força física alguma, com a simples troca de um sussurro, Miguel espancou o guri.
Tanto que, ao longo dos anos escolares, o fedelho mudava o caminho e fugia quando a gente se aproximava pelos corredores.
Gostaria de saber o que ele pronunciou para desmontar a guarda e o insulto.
Deve ser o verso perfeito que procuro.
Fonte: Fabrício Carpinejar
Entro no texto com o bolso cheio de pedras. Vou esvaziando com o cansaço.
Para escrever, procuro sempre em pensamento a companhia de um tímido.
Ao lado dele, estou bem protegido. O tímido é o único audacioso que existe.
Fiel como um gato com almofada, um cachorro com osso. Não muda de opinião para agradar. Tem a arte marcial das poucas palavras.
Ele não ataca, explode.
O irmão Miguel é meu tímido preferido. Suave e tranqüilo; não merecia nascer numa família excessivamente escandalosa como a nossa. Não grita em público, não canta no chuveiro, não assovia, muito menos se enerva com barbeiragem no trânsito.
Diz obrigado mesmo quando faz um favor. Agradece a si. Não é para menos que se tornou juiz. Seu silêncio já surgia adulto antes de caminhar.
Na escola, nunca arrumou briga, ao contrário do Rodrigo que se engalfinhou em socos e pontapés com um colega durante três recreios consecutivos (foi a maior luta de boxe do colégio Imperatriz Leopoldina) e de mim, que cuspia e cotovelava os oponentes nos jogos de futebol.
Ele nunca perdeu a postura até que um dia alguém de sua turma insinuou que a nossa mãe era uma piranha porque estava separada. Isso que minha mãe nunca mais casou ou namorou após o divórcio.
Com respeitosa mudez, pediu que não me mexesse, deu dois passos para perto da figura insolente, um menino ruivo, como se fosse cumprimentá-lo. Fiquei espantado com sua diplomacia de guerra. De onde tirou o sangue-frio? Chegou rente aos seus ombros e disparou algo em seu ouvido. Não consegui entender, ninguém escutou.
O troglodita de espinhas fechou a boca, resmungou um lamento de gaita e desandou a chorar.
Chorava e se desculpava compulsivamente.
Sem nenhum empurrão e gancho, sem força física alguma, com a simples troca de um sussurro, Miguel espancou o guri.
Tanto que, ao longo dos anos escolares, o fedelho mudava o caminho e fugia quando a gente se aproximava pelos corredores.
Gostaria de saber o que ele pronunciou para desmontar a guarda e o insulto.
Deve ser o verso perfeito que procuro.
Fonte: Fabrício Carpinejar
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Leia!
"Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas."
Mário Quintana
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas."
Mário Quintana
sábado, 4 de outubro de 2008
Homenagem à Tony Vilela

As cinzas do surfista Tony Villela serão lançadas ao mar da Ilha do Pompeba, na Praia de Pitangueiras, em Guarujá, às 11 horas deste sábado. A homenagem não foi realizada no último final de semana por causa da chuva.
Na ocasião, surfistas, familiares e amigos realizaram uma bonita e emocionante reunião para lembrar de Tony, que morreu no dia 14 de setembro, após entrar na água para salvar quatro jovens. O corpo do surfista foi encontrado no dia 17 de setembro
Herói
Tony Vilella era um surfista experiente e jogou-se no mar revolto, com ondas de forte poder de arrebentação na encosta do Morro do Maluf, usando a prancha como apoio, para salvar os jovens de São Paulo, que não conseguiam escapar da correnteza em um dos pontos mais perigosos da praia. Dois deles saíram sozinhos com suas pranchas, orientados por Tony. E ele conseguiu tirar outros dois surfistas que estavam de prancha na área de risco.
Mas, na manobra, Tony perdeu a prancha que usava e foi jogado pela força da correnteza contra as pedras. Quebrou um dos braços, ficando sem forças para vencer as ondas. Joel Ribeiro, um salva-vidas, chegou a cerca de dois metros de Tony, pilotando um jet ski. Mas uma onda forte o obrigou a alterar a manobra, perdendo contato com o surfista. Outra tentativa, com auxílio de um helicóptero, também foi infrutífera: não conseguiram jogar a corda até o surfista que, com o braço quebrado, não conseguiu segurarse nas pedras escorregadias, cobertas por limo.
A procura do corpo durou três dias e meio, Foi encontrado no dia 17 pelo Corpo de Bombeiros. Tony Andreo Vilella, também conhecido como "Toni da Feirinha" - ponto de encontro dos surfistas na Praia de Pitangueiras - nasceu em 31 de julho de 1976.
Ele tinha uma filha do primeiro casamento, Jenyfer Cardoso dos Reis. O surfista nasceu em Guarujá e trabalhou como guarda-vidas temporário, em 2000. Participou de inúmeros outros salvamentos.
Fonte:A Tribuna
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
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