
Tínhamos mais ou menos a mesma idade, uns 15 anos, e mais ou menos o mesmo nível de surf. Apesar de posturas completamente diferentes, que dificultavam nossa comunicação, nunca deixei de admirar sua coragem. Sempre que o mar subia e ficava gigante, e as séries vinham lá de trás da pedra do Arpoador, ele dava um jeito de se posicionar na parte mais crítica da onda. O moleque não queria nem saber. Virava a prancha e botava pra baixo. E de backside, naquela onda toda balançada e cascuda. De dez, completava duas. Era cada vaca! Horripilante. Quer dizer, horripilante pra mim, que preferia remar na de trás e dropar num lugar que desse pra fazer a onda.
Cansei de ver aquela cena -- a prancha ficando grudada no lip e ele sendo arremessado lá de cima, olímpico, que nem uma formiga levando um peteleco. Mas o que mais me espantava era o sorriso estampado no seu rosto. O cara ria da situação. Um riso zombeteiro, maligno, diabólico. As outras ondas da série o amassavam com toneladas de espuma branca e o cara continuava rindo. Ria de quê esse cara? Da vida, do medo, dos que têm medo? O tempo passou e acho que é bem por aí. Seu riso era de gozo. O medo lhe dava tesão. O perigo bombava seu cérebro com adrenalina. Ele precisava disso pra viver. Não era teatro. Deu no que deu. Em busca dessa euforia, passou a vida vivendo perigosamente, envolvido com traficantes de drogas e vampiros desse submundo. As coisas funcionaram durante um tempo, mas depois a casa caiu- como sempre cai. E hoje, bem, hoje…
Pode-se dizer muito sobre uma pessoa apenas observando seu surf. Acredito até que um psicólogo avançaria muito mais no diagnóstico e consequente tratamento do seu paciente se ele fosse surfista e pudesse assistir o cara na onda. Isso porque em cima de uma prancha não tem teatrinho nem camuflagem, você é o que é, e mesmo que tentasse não conseguiria se esconder. É tudo muito rápido, e seus reflexos e instintos ficam a flor da pele revelando pro mundo qual é a sua.
Sempre me lembro de um cara que vivia engomado e penteado. Ele até surfava bem, mas suas manobras eram um pouco forçadas. Mas o que mais me chamava a atenção era o fato dele, logo depois de uma manobra bem feita, tipo um batidão, ficar olhando em volta, ainda na onda, pra ver se alguém tinha visto o que ele tinha feito. Esse cara era vaidoso e surfava pros outros. Ele precisava de uma platéia, e hoje nem surfa mais. Foi ficando meio gordo, dando de borda. Sem platéia, perdeu o tesão e parou. Pior pra ele, que surfava pelas razões erradas. Tem outro que sempre encontro na Prainha. Esse nunca acredita que vai conseguir fazer a onda. Já dropa despencando, pulando da prancha. Rema mal e nunca acha que a onda lhe pertence. É um cara extremamente inseguro. Tem aquele que sempre rema em disparada e sai acelerando a prancha sem se importar se já tinha alguém vindo atrás ou se tem neguinho em baixo. Egoísta. Tenho um velho amigo que a vida inteira cai no mesmo cut back. O cara simplesmente dá de borda na puxada e cai. Há 20 anos que isso acontece. Não é a toa que não consegue aprender com seus próprios erros e vive dando cabeçada. Tem o calmo, que senta lá for a e pega poucas e boas. Tem o ansioso, que não aguenta chegar no outside e fica pegando tudo o que aparece. Tem o medroso, que mal a série aponta no horizonte já rema à toda pra passar as ondas. Tem o esforçado, que conseguiu surfar bem graças a muito treino e dedicação. Essas pessoas se parecem muito com seu surf.
Aliás, todo mundo sempre se parece com o seu surf. Sunny Garcia não poderia surfar como Rob Machado. Ele é agressivo, radical, enquanto Machado é polido e delicado. Johnny "Boy" Gomes é violento e não poderia surfar fluido como Tom Curren, que é psicodélico. Danylo Grillo só poderia surfar como surfa. E o bronco do Peterson Rosa? E o debochado do Occy? E você, caro leitor, já se viu surfando? Se você acha que seu surf não tem nada a ver com a sua personalidade, pergunte pros seus amigos. Você poderá se surpreender com a resposta.
Fred D'Orey via sua coluna na Fluir
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