
Outro dia me peguei olhando intensamente pra uma foto da Ucrânia, que saiu publicada na seção de turismo de um grande jornal. Achei aquilo a coisa mais linda do mundo. Tão diferente! Uma cidade medieval completamente preservada na beira do mar. Me deu uma vontade louca de conhecer aquele lugar, mas eu já sabia que isso nunca iria acontecer. Não tem como. Pelo menos não agora. Não ainda. Como não tem onda na Ucrânia não posso ir.
Também tenho muita vontade de conhecer os Lençóis Maranhenses. Sem falar no Pantanal e nas Chapadas. E como seria bom mergulhar nas águas transparentes de Bonito. Ou dormir numa pousadinha histórica de Ouro Preto. Ver a bicharada da Amazônia deve ser um absurdo, adoraria. Mas não posso fazer nada disso. Não tem onda nesses lugares. E o surf, esse meu senhor, não admite infidelidades.
Já vivi essa história de ou eu ou a prancha. Todo surfista que se preza já passou por isso. A mulher queria me arrastar pra Bahia no réveillon. Passar os dias bebendo caipirinha de frente pro mar flat de Caraíva. Sentia calafrios só de imaginar tanto tempo ‘perdido’ sem surf. Queria era ir pro Peru celebrar a passagem do ano exausto depois de surfar muitas esquerdas perfeitas. Ela acabou indo com as amigas pra terra de Caymmi e eu embarquei sozinho naquele vôo da Aeroperu rumo à Lima, e depois mais ao norte. O casamento acabou. O surf falou mais alto. De novo.
Mas essa não foi a única perda que o surf me impôs. Houve muitas, no decorrer da vida. Sou prisioneiro do surf. Todas as minhas escolhas são ditadas por ele. Sempre foram. E isso é muito louco, essa coisa de ver o mundo através de uma lente e excluir todas as outras possibilidades. Que é o que nós, fissurados do surf, acabamos fazendo.
Mas nem sei se gosto mais disso. É como se secretamente desejasse ficar de fato velho pra começar o resto da minha vida. A 2ª parte. Que é quando eu vou finalmente poder fazer todas as coisas que o surf nunca deixou. Meditando sobre o assunto, chego a divagar que as pessoas que não se alucinam tanto por uma só coisa são mais livres. Experimentam mais, estão abertas, se permitem. Quem sabe até vivam mais. Penso nisso o tempo todo, somos, afinal, a soma das nossas contradições.
Mas rapidinho essas incertezas desabam. Pois quando olho o mapa-múndi, meus olhos fixam, como que hipnotizados, todos os picos de surf que ainda não conheço. E eles são muitos. É, eu penso, chapadas e pantanais vão ter que ficar pra outra encarnação. Ou pra quando eu ficar bem velhinho e não conseguir mais surfar. Por ora, o tempo voa e não posso ficar de bobeira. Tem muita onda a ser surfada, ainda. Continuo prisioneiro do surf, mas com muito prazer.
Fred D'Orey, via sua coluna na Revista Fluir
3 comentários:
putz falha minha.. achei que fosse vc.. hehe!!
ai como sou delisgada!
Muito Bom, suas palavras falam pelo coração, especialmente a poesia sobre quando o oceano falou com você!
Namaste,
Naiana
ecoviagem.uol.com.br/blogs/naiana-natureza/
Obrigado Naiana!
Namastê!
Vamos manter contato!
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