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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Exílio


Uma maré gelada se agarrou ao litoral do sudeste brasileiro com determinação. Sua água escura e fria parece ter adotado as praias de São Sebastião, e também Guarujá, como morada de férias, do mesmo jeito que um gringo elege o Brasil e aqui fica, meio desbundado com a beleza e com a facilidade de se encostar.

Esse mesmo mar esfriou o vento sul e sudeste e empurrou sua temperatura baixa para dentro das florestas que resistem nas montanhas do litoral norte. Esses grupos de mata fechada são como revolucionários cubanos lutando contra o capitalismo e seus lotes imobiliários. São ilhas que, ao invés de Miami, têm o desenvolvimento de São Paulo como vizinho e ameaça.

Apenas com a diferença de que essa Cuba verde não vê seus moradores se jogando em balsas improvisadas rumo ao desenvolvimento e à grana. Na verdade, o que acontece é o contrário. Eu, que moro em São Paulo, me pego agora boiando em meu longboard no mar gelado e com ondas pequenas de Camburi. Têm locais juntos de mim mas a maioria dos surfistas que dominan o line up também não são daqui. Se lançaram na estrada com suas pranchas e desespero, esperando que o surfe os faça esquecer de onde precisam ganhar a vida para lembrarem de onde podem desfrutá-la. Eu sou um deles remando e torcendo para aceitarem meu pedido de asilo.

Os longboards ajudam a clorir a visão pois, com exceção do meu, a maioria é pintada de cores fortes que, num dia de sol e mar azul escuro como o de hoje, saturam o espetáculo. Essa era a primeira vez que surfo com tantos caras bons. Depois de cada onda, passam por mim sujeitos que, com muita elegância, manobram seus pranchões com a desenvoltura digna de filmes.

Algumas vezes, mais de um por onda e - sem deixarem o mau humor estragar o dia – sempre sorrindo por saberem que o mar é para todos. Essa visão me fez lembrar da matéria que havia lido na revista de surfe australiana Tracks, autoentitulada “A bíblia do Surfe”, sobre brasileiros invadindo aquele país.

O jornalista nos descreve como desesperados, expurgados do Brasil pela pobreza, violência e corrupção pública para crowdear as cidades da Gold Coast em busca de uma vida digna e repleta de boas ondas. Termina nos dando as boas-vindas, mas com uma sugestão: que não fôssemos para as melhores praias, mas para as cidades ao lado, onde não causaríamos tanto incômodo.

A unânimidade do artigo é a nossa falta de educação e de como “seríamos capazes de remar por cima de nossas próprias avós para dropar uma da série.”. Olho para o meu reflexo n’água, me viro e vejo todos os outros que estão surfando ao meu redor, felizes e silenciosos. Não nos reconheço naquela descrição. Não nesse dia.

Felipe Luchi, via Chasing the Lotus

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

...diante dos Teus olhos...


“E, se você tiver feito isso, desejo saber da seguinte forma se você ama ao Senhor e a mim, servo dele e seu: que não exista no mundo irmão que tenha pecado – por mais que tenha pecado – que, depois de ter olhado nos seus olhos, possa partir sem a sua misericórdia, se estiver buscando misericórdia.

Que, se não estiver buscando misericórdia, seja você a perguntar se ele quer misericórdia; se ele pecar mil vezes diante dos seus olhos, que você o ame mais do que a mim de modo a atraí-lo para o Senhor; e que você estenda sempre misericórdia a irmãos como esse.”

S. Francisco de Assis, Carta ao irmão N. (1222)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O rejuvenescimento do ser na era do ter.



Outro dia, fui surfar com um amigo meu, que já surfou bem nos anos 80/90, mas ele estava totalmente fora de forma. Pai de uma filha, advogado e acima do peso, estava sem remada alguma, sem rip, há meses sem molhar a prancha Joca Secco (já empoeirada) na água.

Após ter colocado "pilha" para a sua volta triunfante ao surfe, ele aceitou meu convite e fomos surfar no meio da Barra, Rio de Janeiro. As ondas, nas séries, tinham cerca de 1 metro e meio e abriam (algumas fechavam, vamos ser francos) com pouco vento e maré cheia.

Não foi tão fácil, pois ele estava fora do rip. Há uma espécie de sintonia com as ondas, ou você se encaixa, se acha no mar, ou não, fica boiando, meio perdido, sem ação. O mar te cobra atitude, decisões imediatas e remada em dia.

É o famoso binômio ônus & bônus: Sem remada, sem recompensa. Com remada, com êxito na performance.
Ricardo Martins, um grande e conhecido shaper carioca, declarou há muitos anos (nunca me esqueci disso): "Você deve manter a remada em dia, surfando (quando der) mesmo nos dias horríveis, para poder surfar bem nos dias bons e perfeitos. Sem remada, não há muito prazer nesse esporte, pois você apanha o tempo todo do mar, que passa a ser um incômodo."

Creio que duas ou três vezes por semana (quando muito) é suficiente para que um pai de família, trabalhador, mantenha a sua remada em dia.
Falo de surfistas um pouco mais experientes, mas que não ficam na areia moscando, enquanto a vida passa. Estudamos, trabalhamos, educamos os nossos filhos, mas o segredo da energia/inspiração/motivação para o dia-a-dia é através do rejuvenescimento dentro d'água, em contato direto com a mãe natureza. Um mês fora d'água, nem pensar. 10 DIAS sem surfar, você já deve ficar preocupado e ligar o alerta vermelho para não ficar enferrujado, oxidado.

Quando mais ferrugem, menor a motivação de voltar ao surfe. Você cai numa espécie de marasmo, de acomodação perigosa. Daí vem a barriga de chopp, a falta de ânimo, o stress, a fadiga, enfim, a falta de vibração/energia do ser.

Vem a bola de neve de conseqüências ruinosas. Sem rip, sem inspiração, sem metas e sem sonhos, a vida fica mais pesada, mais depressiva e desgastante.
Por isso, não deixe a vida te levar. Não se leva nada dela também, mas você pode levá-la mais leve. Os momentos ficam, as ondas passam e o tempo voa.

Cedo ou tarde, sua jornada chegará ao fim. Não fique pensando muito, parado e inerte, pois, assim, jamais sairá do lugar. Você pode dar o primeiro passo, colocar a prancha no carro, tomar uma atitude e voltar a surfar.
Mas só voltar ao esporte não basta.

Lembrem-se de que é preciso manter o rip. Surfe é rip.

Vi no Chasing the Lotus

domingo, 11 de julho de 2010

Hustene chorou baixinho


Ao se deitar na noite
de 28 de junho, Hustene Alves Pereira, mais conhecido pela família e amigos como Pankinha, chorou baixinho. Estava a dois dias de completar 51 anos e se sentia humilhado.
Para compreender o sentimento de Hustene, é preciso saber que espécie de homem ele é. Eu o encontrei pela primeira vez numa reportagem no início de 2002. O país era castigado pelo desemprego, e eu buscava um brasileiro que contasse este momento histórico pela vida, não pelas estatísticas. Um que estivesse no parapeito do abismo. Não quando acabamos de perder o emprego e a possibilidade de conseguir outro logo é uma promessa que quase tocamos com a mão. Nem aquele outro período, anos depois, em que a esperança já se foi e manter a cabeça erguida em cima do pescoço é um esforço grande demais.
Eu buscava o momento que me parece o mais trágico, quando percebemos que o abismo se descortina como vertigem e nos agarramos aos capins da borda conscientes de que não impedirão nossa queda. O instante em que os filhos começam a sustentar a casa sacrificando o próprio futuro, os produtos anunciados na televisão são para outros e nos escondemos durante o dia para ocultar dos vizinhos que não temos para onde ir. Quando descobrimos que não há lugar para nós no projeto do presente, que nossa vida é para a geração seguinte, reduzidos a gráficos que os especialistas explicam sem precisar manchar as mãos com nosso sangue.
Hustene vivia este exato instante. Continha nele todas as estatísticas, mas nele elas eram carne. Morava, como ainda mora, na periferia de Osasco, na Grande São Paulo, quatro filhos e uma mulher que ama. Numa casa de sala, cozinha e quarto, além do terraço e do banheiro, num terreno que divide com parentes. Quando o conheci, era um homem com brilho nos olhos, discurso articulado, esperneando contra todo um país que falhava com ele.
Tentava compensar os estudos que não pôde terminar lendo tudo o que lhe caía nas mãos e buscando na TV programas que pudessem lhe ensinar alguma coisa. Com um senso tão grande e tão particular de honestidade que preferia andar a pé dezenas de quilômetros por dia em busca de emprego a aceitar passagens de ônibus da prefeitura. Hustene achava que tudo que não ganhava com trabalho era esmola.
Acompanhei-o por um tempo em sua peregrinação, dividi com sua família o feijão que sua mulher, Estela, tornava saboroso com pouco além de um tempero que só podia ser amor. E depois que a reportagem foi publicada continuamos nos acompanhando mutuamente, às vezes perto, às vezes mais longe. Nos últimos oito anos testemunhei Hustene lutar pela sua vida de todos os modos, com uma força que quem o visse pela primeira vez não adivinharia naquele homem tão franzino. Lutando pela literalidade de sua vida que a precariedade do sistema público de saúde solapava, pela dignidade de sua vida sem a qual ele não admitia seguir existindo.
Se me perguntassem um dia o que para mim é mais triste testemunhar como repórter, como gente, eu diria que é o desperdício da vida humana. Não apenas pela morte em si, mas pela vida que não pôde se tornar tudo o que poderia ter sido. O desperdício do potencial de homens e mulheres. As tantas pessoas com uma capacidade extraordinária, mas que não tiveram as condições mínimas para desenvolvê-las. E, o pior, com a consciência do que poderiam ser se tivessem nascido em um país com uma desigualdade menos abissal que o Brasil. Vidas roubadas porque o Brasil está aquém de seus sonhos.
Hustene é um destes homens que sonhou mais com o país que o país com ele. E o Brasil foi triturando-o como o moinho da música famosa de Cartola. Nos mais de três anos em que ficou desempregado, apalpou o desespero sem cair no comportamento clássico de tantos. Não se embebedou em bares que não podia pagar, nem levantou a voz para a mulher ou bateu num filho. Em vez disso, desenhava e escrevia furiosamente em folhas de papel. Fazia bicos pagos aos trocados, carregando caixas enquanto uma bursite lhe arrancava lágrimas. Mas seguia acreditando na trindade em que havia assentado suas melhores esperanças: Che Guevara, Corinthians e Nossa Senhora de Fátima. E agarrado à sua carteira de trabalho. Ensinado que fora pelo pai, retirante nordestino, metalúrgico, que este é o documento mais importante na vida de um homem.
Quando já havia consumido todas as unhas para se manter agarrado às paredes do precipício, em 2005 Hustene conseguiu um emprego com carteira assinada e tornou-se o “porteiro Pereira”. Não era um trabalho à altura de sua capacidade, mas nunca, nunca mesmo, vi alguém tão feliz trabalhando por pouco mais que um salário mínimo. Às 4h20 da madrugada ele já estava dentro do primeiro ônibus, com um orgulho que só ele entendia, e cumpria turnos estafantes de 12 horas sem uma queixa. Hustene achava que tinha escalado o despenhadeiro. Mas em outubro do ano seguinte ele sentiu-se mal e Estela o  levou ao posto de saúde. O médico garantiu que era “só” uma crise de diabetes e o despachou para casa, onde ao chegar ele teve um AVC (acidente vascular cerebral) que paralisou o lado esquerdo de seu corpo.
Hustene reaprendeu a falar e a andar. Em 14 de abril de 2008 estava tão ou mais feliz que nas vitórias históricas do Timão: tinha arriscado seus primeiros passos sem bengala. Mas em janeiro de 2009 teve o segundo AVC. Agora ele se desequilibra mais, a força lhe escapa, sente náuseas. Esquece dos acontecimentos recentes. Nem sempre se lembra de tomar água. É Estela quem precisa avisá-lo para tomar os 16 comprimidos do dia além das três doses de insulina com que tenta manter o diabetes mais ou menos domado. Com o segundo derrame também se apagou dentro dele o dom do desenho.
Mas Hustene não perdeu sua lucidez. Ele ainda segue escrevendo no computador que ganhou, em diários com papel e caneta, sem perder um documentário na TV. Tão honesto como sempre, em sua casa nunca admitiu nem mesmo os “gatos”, as ligações clandestinas de eletricidade, TV por assinatura, etc. Nem mesmo nos piores momentos, ele fraquejou em fazer a coisa certa. A honestidade, tão fácil para quem pertence às classes mais favorecidas, ainda que não muito praticada, para os da estirpe de Hustene é uma conquista arrancada de cada um dos dias. Com tudo o que é, apesar de tudo que lhe tomaram, Hustene continua acreditando. De sua trindade, mantém a crença em Nossa Senhora de Fátima e no Corinthians, esmoreceu um tanto de Che Guevara. Em nenhum momento perdeu a fé no Brasil.
Há um ano começou a perceber que sua visão piorava. Descobriu-se que ele tinha uma doença grave e degenerativa. Mas os exames demoravam, assim como o tratamento. Uma amiga pagou-lhe um médico particular para obter um diagnóstico preciso. O profissional alertou que era muito sério e não dava para esperar. Se não se tratasse logo, ficaria cego. Mas não havia dinheiro para tratamento privado. Hustene voltou ao sistema público de saúde.
Mais de seis meses se passaram enquanto ele ainda espera por tratamento. Agora testemunha a acelerada ruína de sua visão. Tento imaginar o tamanho da impotência e do pavor que é acompanhar dia após dia a corrosão dos olhos sem conseguir a assistência médica necessária, a mercê de um sistema em que cada exame crucial demora meses para ser feito e, quando a data da consulta médica  finalmente chega, já é necessário fazer outro que levará mais alguns meses.  Não alcanço.
Mas ainda não foi por isso que na noite de 28 de junho Hustene chorou baixinho ao se deitar, a dois dias de completar 51 anos. Naquela segunda-feira ele levou uma hora e 50 minutos até alcançar o posto do INSS. Era dia do jogo do Brasil X Chile. Trêmulo, instável, com náuseas e
enxergando mal, ele apresentava-se na hora marcada desde maio para que um perito comprovasse a necessidade de renovação do seu benefício. Nas mãos, Estela tinha os laudos médicos exigidos. Para cada um deles, uma correria, muitos ônibus e muita fila. Como se dissesse algo como “hoje não temos brioches, volte daqui a dois meses”, uma funcionária informou-lhe que os peritos estavam em greve. E remarcou a perícia para 19 de agosto.
Junto com outros desesperados, Hustene voltou para casa. Os laudos médicos perdem a validade em 30 dias, só servirão para virar lixo reciclável. Mais ônibus, novas filas, para que outros sejam feitos, dificultando ainda mais uma existência sofrida e sobrecarregando também um sistema já deficiente. Enquanto não passar pela perícia, Hustene nada ganha para sustentar sua família. Meses sem dinheiro para o supermercado e as contas. Era por isso que ele chorava. Pelo pouco caso com a sua vida, uma vida que lhe custa tanto manter dentro dele.
Não me cabe julgar se a greve dos peritos do INSS é justa ou não. O que posso afirmar é que a situação de Hustene e de todos como ele é injusta. O que escrevo não é um relato sobre um acontecimento pontual, mas sobre uma vida roubada aos poucos, de várias maneiras diferentes. Igual a de milhões nos percalços, diversa de todas.
Nos chocamos com a destruição causada pelas guerras declaradas, quando a vida de um povo está seguindo seu curso e de repente tudo acaba, tudo se perde, sonhos destroçados junto com braços, cabeças e pernas. Aqui escrevo sobre as guerras invisíveis, em que tantos ainda morrem sem alarde e bem mais perto, pela omissão do Estado e de todos nós, mesmo quando o país começa a melhorar alguns de seus índices e diminuir sua fome. O massacre silencioso e persistente que se desenrola à margem dos que podem pagar por saúde e educação de qualidade, dos que têm rede de proteção quando ficam desempregados e dos que ao serem desrespeitados em seus direitos sacam o iPhone e acionam seus advogados.
Há um país que morre aos poucos e a cada dia ao nosso redor. Ao contrário de Hustene, que perdeu a saúde e agora perde também a visão por descaso, que é condenado a meses sem dinheiro para sustentar a família pela força de uma única frase pronunciada por uma funcionária pública, nós enxergamos bem, mas escolhemos ser cegos. Para ele, porém, não existe esta opção. É sua a vida que escapa como água entre seus dedos. São seus os sonhos triturados. É sua tragédia tudo o que poderia ser – e não será apenas porque nasceu no lado errado do mundo.
Acho curioso quando especialistas de todo tipo transformam a miséria do outro em parâmetros lógicos. Nos gráficos e análises destes técnicos e acadêmicos tudo faz sentido e nada purga. Eu gostaria de saber como eles encarariam se fossem eles a não ter a chance de ser – e seus os filhos sem chances. Histórias como a de Hustene são tão corriqueiras que nem sequer viram notícia. Agonias como a dele acontecem sempre, é por isso mesmo que deveríamos nos indignar. Em vez disso, nos anestesiamos. Temos voz, mas preferimos calar.
Tenho 44 anos, muito e pouco, dependendo do ângulo de quem olha. O suficiente para testemunhar a perda de indignação que vem nos corrompendo. A impossibilidade cada vez maior de vestir a pele do outro. Tão confinados e com tanto medo dentro de nossa própria pele que a dor do outro é encarada como uma ameaça ao frágil equilíbrio de nosso mundo cada vez menor. Então nos escondemos no cinismo, que é a pele sintética dos covardes.
Se um dia Hustene ficar cego, sei que seus olhos ainda vão brilhar com a mesma febre. Eu não sei como ele faz, porque há nele uma sabedoria que não existe em mim. Mas ele resiste. Ainda que claudicante, sem forças, espoliado o tempo todo, ele me assegura que é feliz. Pergunto a ele como, por que, de que matéria é feita essa força que o faz levantar a cada rasteira, ainda que restando no chão em alguns pedaços. “Eu vejo meus filhos em casa nos fins de
semana, o riso da minha neta, ao meu lado a mulher que amo e que escolheria em quantas vidas tivesse. E há ainda uma viralatinha linda que eu cuido chamada Pantera. Nunca precisei visitar um filho na prisão porque eles são honestos como eu. Sei que para eles sou espelho. Vou seguir lutando. Acredito no meu país, ele já foi pior para os pobres, está melhorando.”
Naquela noite, quando chorou baixinho, Hustene se sentia humilhado. Mas não só. Tinha dentro dele também revolta. Me escreveu para que sua voz me alcançasse e, através de mim, ele pudesse dizer que essa indiferença com a sua vida dói. Que essa indiferença pode matá-lo. E a morte para brasileiros como Hustene nunca vem como metáfora.
Depois, escreveu para dizer que segue acreditando. E lutando. E esperneando. Escreveu para dizer que não vai desistir de brigar pela vida.
fonte: Época

domingo, 4 de julho de 2010

...essa noite a gente durmimo no quentinho...


Uma familia extremamente necessitada recebeu um presente anônimo às vésperas do inverno.  Quem intermediou a ação foi uma enfermeira que conhecia as redondezas.
O volume foi entregue logo pela manhã, antes que a mãe saísse de casa e deixasse, como sempre, as três crianças pequenas trancadas no minúsculo cômodo em que viviam.  Talvez não fosse a melhor opção, mas quem mora em uma área carente da Baixada Fluminense não pode se dar ao luxo de deixar os filhos soltos pelas ruas.
Em meio à surpresa matinal, os embrulhos foram abertos rapidamente pelos três. Havia pacotes coloridos com cobertores novos, brinquedos, pares de meias, chocolates. Chocolate era uma preciosidade para eles. A cada fita desenrolada, gritinhos de contentamento.  A alegria se estendeu até a noite.
No dia seguinte, saindo de casa, a enfermeira bateu à portinha do barraco e olhou pela janelinha o rosto das crianças.  O caçulinha, ainda deitado ao lado dos irmãos, já estava acordado.  Seus grandes olhos de jabuticaba brilhavam enquanto passava as mãos vagarosamente pelo cobertor novo.

Ele levantou, chegou perto da janela e estendeu as mãos para a moça. Claro, ela não ia tirá-lo de lá,  mas soprou um beijinho e perguntou do que ele mais tinha gostado: dos brinquedos ou dos chocolates?

Ele olhou com ternura para os irmãos adormecidos na única cama, dobrou os bracinhos e, sorrindo, respondeu baixinho:
- O que eu mais gostei é que essa noite ” a gente durmimo” no quentinho.

Quem ensinou esse garotinho que “a gente” é mais importante do que “eu”? Quem colocou tanto amor no seu coração, que preferiu sentir satisfação por terem dormido juntos, “no quentinho“, felizes,  mesmo tendo outros presentes?
Quem?

fonte: Timilique!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Da arte de não fazer amigos


1. Fale sempre a verdade, isto é, o que você acha que é verdade, mesmo que vá doer nos outros.

2. Seja sempre crítico, com olhos sempre atentos a tudo e a todos. Afinal, os defeitos devem ser revelados, para que as pessoas mudem.

3. Deseje que os amigos sejam sempre pontuais como você, corretos como você, dedicados como você, interessados como você.

4. Quando seu amigo errar, não o perdoe, porque ele não podia fazer o que fez.

5. Convidado para um aniversário de um amigo, faça qualquer outra coisa e não vá, mesmo que não seja nada, para não ter que encontrar pessoas desagradáveis.

6. Jamais dê um presente, sobretudo quando estiver bastante ocupado ou o dinheiro andar curto.

7. Na hora do jantar num restaurante, faça questão de dividir rigidamente a conta, real por real, centavo por centavo. Afinal, precisamos ser sempre justos.

8. Não responda às mensagens que os amigos lhe mandam.

9. Não desvie sua rota para dar carona a um amigo. Não saia da sua rotina para aceitar um convite.

10. Conte muitas histórias, todos os seus sonhos, mas nunca ouça os relatos dos outros, porque não são interessantes.

11. Pense que os amigos devem estar sempre à sua disposição e viva como se a recíproca não fosse verdadeira.

12. Jamais abra o seu coração com alguém.

Vi no blog do agora meu "amigo virtual" (risos) Pava.

terça-feira, 23 de março de 2010

Desapego


O matemático russo Grigory Perelman, 44, considerado um dos maiores gênios vivos do mundo, declarou ontem que não tem interesse em receber o prêmio de US$ 1 milhão a que tem direito por ter resolvido a chamada Conjectura de Poincaré.
Em seu apartamento infestado de baratas em São Petersburgo, Perelman afirmou, sem abrir a porta: “tenho tudo o que quero”, segundo informou o jornal britânico Daily Mail.
Na última semana, uma instituição dos Estados Unidos reconheceu que o estudioso russo demonstrou a Conjectura de Poincaré, que desafiava os matemáticos há mais de um século.
O matemático francês Jules Henri Poincaré (1854-1912) estimou que, de forma simplificada, qualquer espaço tridimensional sem furos seria equivalente a uma esfera esticada.
Poincaré e os matemáticos que vieram depois dele acreditavam que a proposta estaria correta, mas não conseguiram uma prova algébrica sólida para elevar a conjectura à categoria de teorema.
A complexidade do assunto levou o Instituto de Matemática de Clay a incluir o problema entre os “sete desafios do milênio”. Para cada desafio que fosse solucionado, o instituto prometeu pagar um prêmio de US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,78 milhão).
Na semana passada, James Carlson, diretor do instituto, reconheceu a façanha de Perelman e anunciou que a Conjuntura de Poincaré é o primeiro dos sete desafios a ter solução.

Morando com as baratas

A vizinha Vera Petrovna afirmou ao jornal britânico que já esteve no flat do matemático. “Ele tem apenas uma mesa, um banquinho e uma cama com um lençol sujo que foi deixado ali pelos antigos donos – uns bêbados que venderam o apartamento para ele”.
“Estamos tentando acabar com as baratas nesse quarteirão, mas elas se escondem na casa dele”, acrescentou.
Esse não é o primeiro prêmio esnobado por Perelman. Há quatro anos, ele não apareceu para receber a medalha Fields da União Internacional de Matemática.

Informações do Daily Mail, via UOL Notícias

terça-feira, 16 de março de 2010

...eu choro a cada vez que perco um dia de surf...


Recomendo que voce assista esse video em um ambiente tranquilo, silencioso, em tela cheia e som alto.
Chorei pela primeira vez vendo surfe.

Não chorei pelo Michel, que voce verá surfando acima, chorei pelos meus dias perdidos de surfe.
Pelas minhas desculpas esfarrapadas.
Pelo tempo que deixei de passar n'água, pela perda do tempo.
Tive inveja da entrega ao mar, da areia no corpo dele, do carro bagunçado, da capacidade de se divertir.
Michael tem uma relação com ondas que eu não tenho.
O fato curioso é que ele escolheu justo o lugar onde, 30 anos antes, acidentou-se e perdeu os movimentos das pernas - onde ele mesmo diz não saber como evitar, um dos lugares que mais gosta de estar em todo mundo.
Hoje eu chorei pela primeira vez vendo surfe e minhas lagrimas nunca foram tão doces.

Desde que comecei a rabiscar algumas linhas nesse blog, NUNCA havia postado um vídeo.
Assista, e depois tire suas próprias conclusões sobre o porque de minha mudança de pensamento.
Eu vi aqui
, e o texto é do Júlio Adler.

quinta-feira, 4 de março de 2010

...sede pois meus imitadores...

"Um cristão verdadeiro é uma pessoa estranha em todos os sentidos. Ele sente um amor supremo por alguém que ele nunca viu; conversa familiarmente todos os dias com alguém que não pode ver; espera ir para o céu pelos méritos de outro; esvazia-se para que possa estar cheio; admite estar errado para que possa ser declarado certo; desce para que possa ir para o alto; é mais forte quando ele é mais fraco; é mais rico quando é mais pobre; mais feliz quando se sente o pior. Ele morre para que possa viver; renuncia para que possa ter; doa para que possa manter; vê o invisível, ouve o inaudível e conhece o que excede todo o entendimento."

A. W. Tozer. Li no Pavablog

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ódio ao surfista

Toni Vilella, herói guarujaense.
Os metidos a locais e valentões deveriam se espelhar na postura de vida dele e no exemplo que nos deixou...


Em um portal designado a atender surfistas de todo Brasil, este título pode soar fora de contexto. Não está. Na verdade trata-se de um comunicado institucional, dirigido a todos nós, surfistas, simpatizantes, iniciantes e veteranos.

Mas gostaria de substituir a palavra “ódio”. Meu pai sempre disse que é um termo muito forte para ser usado sem certeza. Concordo e como ele tem mais moral, então substituiremos por “não suporto mais surfista”.

Há muito tempo digo isso em razão do meu desapontamento com a rapaziada. Estou perto dos 30 e surfo desde os 15 anos, quando herdei do meu irmão uma “Flor da Ilha”. Muita gente vai se identificar com este início, principalmente quem é aqui de Florianópolis (SC) e que conhece esta prancha.

Meu nível de surf está para “amigo da raça”. Vez ou outra sai uma batida, uma rasgada legal, uma penteada e raramente um tubinho para ganhar o dia, honestamente falando, pois sei bem a diferença entre uma penteada e uma boa “tubaca”, o que muitos não sabem.

Não sou local de nenhuma praia. Aqui, como a maioria, sempre surfei de acordo com as condições, o que faz muito local sair do seu pico para procurar coisa melhor. Para mim está mais para ‘‘deslocalismo’’.

Mas enfim, o localismo existe e deve ser levado a sério. Pelo menos no Atalaia, Itajaí, o único lugar que pude realmente constatar que haole não entra. Só lá! Ou alguém discorda? Em qualquer outro lugar forasteiros entram sim e ainda fazem a festa, ou são “arregados”.

Mas não é do localismo que quero falar e sim da atitude dos surfistas. Um dia destes um amigo que não é do surf me descreveu como invejava os surfistas: “Bixo, esta turma do surf dá um banho. Sempre na praia, tudo em forma, curtindo a natureza, relaxadão...”.

Relaxadão? Curtindo a natureza? Tive que interrompê-lo para dizer que ele não fazia ideia do que estava falando.

Expliquei que hoje em dia existe o localismo. Que em muitas praias surfistas não aceitam outros surfistas. Que o surfista, o garotão da praia, envolvido com a natureza, é no fundo um preconceituoso.

Expliquei que a indústria fabrica surfistas que nada entendem do esporte, que acham que basta tirar a calota do carro, encher de adesivo e amarelar o cabelo para entrar na água berrando, bicudo, sem respeito por nada.

Muitos dizem que não se trata de um esporte democrático. Estive no Rio meses atrás e vi dezenas de moleques da favela andando de prancha na mão, amarradões, sem vícios de marcas ou modismos, apenas curtindo o que as ondas oferecem.

O que se percebe atualmente é que no surf não existe o menor sentimento de companheirismo. Dentro d’água, o sentimento é competitivo e nada amistoso, como se cada onda perdida, pega por outro, despertasse o pior sentimento nos espectadores ali presentes.

Em uma pista de skate, crowdeada de profissionais e amadores, basta um qualquer executar bem uma manobra que soa o coro: “yeah!”. Aliás essa raça do skate sim dá um banho.

Tomar o exemplo desta galera não é difícil. Alguém já experimentou andar em uma pista cheia?  Trombadas, skate dos outros “espirrando” na sua canela (o que machuca demais), porém nenhuma briga, xingamento.

E olha que nem o mar está ali para esfriar a cabeça. Acho que, inconscientemente, existe o respeito ao ser humano, ao desconhecido que está ali compartilhando a mesma experiência. Não vamos considerar como uma virtude o respeito, mas sim como algo essencial para a boa convivência, um acessório de fábrica.

Enfim, pode ser uma opinião bem pessoal. Uns podem se identificar e outros não. É capaz de ter gente me esperando com uma pedra na mão na minha próxima queda.

Queria ver a galera mais relaxada, menos tensão no mar, mais surf e menos desrespeito.
Que os iniciantes busquem entender os fundamentos do surf antes de entrar em um mar crowdeado. Procurem saber o que é preferência, que rabear não é legal, que o mar merece respeito.

E veteranos, vocês já foram iniciantes, tentem ser mais compreensivos e, ao invés de dar um esporro, ensinem, compartilhem experiências, auxiliem. Não é utopia. Pratiquem isso pelo menos uma vez e garanto que as próximas serão mais fáceis.

Costumo dizer que o surf se tornou um esporte ingrato, que estava me trazendo mais desilusões que alegrias. Até que ontem levei meu cunhado, portador da síndrome de down para surfar comigo.

E nele, deitado na prancha pegando uma espumera, eu vi a pureza do surf novamente.

Paz no surf galera!

Gabriel Longo, via Waves

Recomendo também a leitura dos comentários

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Que tal fazermos história?

A reação de narciso, técnico da equipe santista na Copa São Paulo de Futebol Júnior, ao tentar agredir o árbitro após a partida decisiva, exige uma reflexão. Principalmente por partir de quem possui uma história de vida cheia de percalços, de decepções e também da mais bela batalha a que um homem pode se dedicar, o resgate da saúde que lhe fugia às mãos.

Depois de sofrer com o aparecimento de uma leucemia que lhe tirou o trabalho e abalou os sonhos, e suplantá-la após um transplante de medula óssea, é incrível que ainda se porte

dessa forma. Parecia alguém que nunca passara por um problema dessa grandeza, alguém continuadamente exposto à ideologia dominante de que o sucesso, o desenvolvimentismo e o empreendedorismo são verdades inquestionáveis. Um claro exemplo da inquietação do homem atual que jamais se contenta com a simples satisfação dos seus desejos conscientes.

Se sentisse a vida como deveria, ele estaria mais que satisfeito de levar a sua equipe de garotos tão perto do cume com a possibilidade de se esbaldar nas lágrimas da vitória. E jamais se sentiria traído, caso esta efusão de felicidade fosse frustrada.

Quem já viu a morte de perto não deveria enfrentar os problemas humanos de forma rancorosa, emocional e agressiva como o técnico fez. E sim como uma honrosa derrota no jogo da vida, facilmente resgatável nos eventos que se seguirão, acompanhada de uma suave sensação de paz interior. Mas, não! O que vimos foi um homem ferido por nada. Perdido na sordidez da expectativa da vitória que não veio e desesperado por não ter conseguido o resultado que, pensava ele, recuperaria o tempo, os sonhos e a posição anterior como se esta fosse fundamental para sentir-se vivo.

Podemos entender parte do que se passa no mais puro sentimento humano quando este se encontra na sua posição e chega perto da glória. Antes de tudo temos de entender que suas iniciativas, inquietações e habilidades subjetivas podem ser passadas aos comandados, mas são estes que executarão a tarefa e realizarão os seus sonhos.

Será a subjetividade associada à impotência de não portar as armas que poderão produzir a vitória, de modo a torná-lo mais sensível aos parâmetros externos que podem influir no resultado final. Ainda que a sua estratégia tenha sido adequadamente empregada pelos jogadores. Imaginemos que tudo tenha sido corretamente analisado e que ele tenha capacitado sua equipe a obter um grau de excelência comprovado. E o resultado seja uma arte inquestionável e abundância de opções que deveriam levar seu time a ser superior ao adversário.

Desfrutaria, dessa forma, prazerosamente do sucesso com certa nostalgia, já que este mesmo sucesso gerencial o torna descartável e desnecessário – a equipe a partir de certo momento joga “por música”. Ou seja, não precisa mais de seu criador, do maestro que a dirigia.

Os homens sempre sonham em fazer história. Quando não conseguem, sucumbem. É o caso do técnico de futebol que tudo faz para ser o artista ou mais que ele e, no entanto, desaparece nos descaminhos da história por não fazer sentido homenagear quem está longe do palco. Não impõe a sua arte e não expõe o seu talento por não chegar aos olhos da sociedade que ele mesmo criou. E essa contradição o corrói absurdamente, levando-o a comportamentos desequilibrados.

O sucesso depende da ação do homem, cuja motivação básica é o desejo de poder. Contudo, neste caso o poder se dilui em cada atleta, onde encontramos suficiente e precoce segurança econômica que o liberta do comando; que acaba se tornando secundário na plena expressão social. Inconsciente, é verdade, pois mesmo desorganizadamente continua a prevalecer a tentativa de impedir a transmissão de poder à nova geração, ainda que de modo mais ameno e menos arrogante.

De outra forma, nunca é demais lembrar as pressões que todos sofremos em nosso cotidiano, já que onde há um processo, esportivo que seja, existe um sentimento dominante de que todas as pessoas e instituições que foram capazes e/ou inovadores em determinado momento se tornarão em seguida ultrapassados.

Uma terrível pressão para a nossa eterna reconstrução e não sermos descartados. E quando temos consciência das nossas limitações, vemos somente a vitória ocasional e transitória como a única saída.

Sócrates, ex-jogador de futebol, comentarista e colunista de Carta Capital. Uma das excessões quando se fala de jogadores de futebol, que geralmente são ótimos com as bola nos pés e péssimos fora de campo. Via Carta Capital

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Os Sem Diplomas

“O diploma é o inimigo mortal da cultura.”
Paul Valéry

O mundo permanece estarrecido e perplexo diante de instituições de ensino que excluem de seu quadro de professores os únicos que “se formaram” para estar lá: os práticos. Que não tiveram muito tempo para se preocuparem com mestrados e doutorados porque estavam atolados no barro do mercado, com suas roupas sujas de graxa, com a barriga marcada pelo balcão. Os únicos a deterem, verdadeiramente, o conhecimento. Os que estudaram na melhor de todas as universidades: a vida.

Assim, foi com alegria e emoção que os que acreditam que só pode ensinar quem sabe fazer, como orientou o maior dos mestres, Peter Drucker, que testemunhamos há dois anos a centenária Universidade de Harvard diplomar, como um de seus melhores alunos de todos os tempos, um dos que optou pelo trabalho em detrimento dos livros: Bill Gates. Cursou apenas o primeiro ano, jogou os livros para cima e foi cuidar da vida.

Nada contra os diplomas. Tudo a favor da prática; tão simples quanto. O mesmo espírito que sempre prevaleceu nas velhas e sábias corporações de ofício. Onde, em torno de uma mesma bancada, se sentavam para aprender, trabalhando, o mestre e seus discípulos. Essa, em meu entendimento, continua sendo a verdadeira escola; a única escola. A maneira como começou há décadas, na Rua Sete de Abril na cidade de São Paulo, a Escola Superior de Propaganda.

Ao lado de Bill Gates, na relação dos sem diplomas, figuram Amador Aguiar, Samuel Klein, Washington Olivetto, Luiz Seabra, Abraão Kasinski e centenas e centenas de vencedores. Que entre assistir a aulas de grandes mestres que se formaram nos ambientes insípidos, inodoros, irrelevantes e improdutivos das universidades optaram por utilizar o mesmo tempo nos chãos de fábrica da vida e da realidade, corpo a corpo com os operários da e em construção.

Recentemente, em entrevista ao The Wall Street Journal, William Gates pai falou sobre Bill, William Gates filho. Hoje os dois trabalham lado a lado na Fundação Bill e Melinda Gates: “Jamais poderia imaginar que meu filho, um garoto respondão e em quem um dia joguei um copo d’água na mesa de refeição para que ficasse quieto e parasse de brigar com a mãe, que morou na minha casa, comeu da minha comida, usa meu nome, fosse ser meu patrão”... “Um dia ele nos comunicou que desistira de Harvard e das escolas para se concentrar em seu projeto empresarial, em Albuquerque, Novo México, uma empresa que batizou de Microsoft; disse que não tinha mais tempo a perder...”.

Tudo o mais é história.

Quem vos escreve, além de colaborador do Propaganda e Marketing há 38 anos, Francisco Alberto Madia de Souza é diretor-presidente do MadiaMundoMarketing, presidente da Academia Brasileira de Marketing e com muito orgulho e maior felicidade, fundador de uma escola livre para ensinar, a MadiaMarketing School, onde todos os professores são diplomados pela vida, dão aulas de macacão sujo de graxa, com botas gastas e cheias de barro, e a cintura marcada por anos de balcão.

Francisco A. Madia, no Propaganda & Marketing.

domingo, 10 de maio de 2009

Ghandi me (ins)pira!

“Eu sou muçulmano! E sou hindu! E sou judeu! E sou cristão!”

Esta frase, colocada na boca de Gandhi em uma das cenas mais marcantes do filme que leva o seu nome, parece-me facilmente concebível na vida real do pacifista indiano.

Gandhi era hindu por criação. Durante certo tempo, no entanto, e devido fundamentalmente à sua formação como advogado, afastou-se bastante de suas raízes. Mais tarde, ao retornar à Índia, resgatou a espiritualidade de sua gente com ainda mais profundidade que nos tempos de infância e adolescência. Esta espiritualidade, familiarizada com a diversidade de um sem-número de tribos, permitiu uma pacífica e harmoniosa convivência durante séculos entre hindus e muçulmanos.

Liderado por Gandhi, o povo indiano venceu a luta contra o domínio britânico. Entretanto, e agora sem o apoio de Gandhi, hindus e muçulmanos perderam a guerra contra a cobiça e travaram uma batalha de irmãos contra irmãos, vizinhos contra vizinhos, parentes contra parentes. A antiga convivência harmoniosa tornou-se impossível graças ao anseio por poder: afinal, quem tomaria o lugar do Império Britânico e dominaria sobre todos? O resultado disto tudo, como sabemos, foi a divisão da Índia em Índia (destinada aos hindus) e Paquistão (destinado aos muçulmanos) e o assassinato de Gandhi.

Este foi o contexto em que Gandhi proferiu a frase citada. Gandhi não queria a divisão de seu povo. Ele não queria a divisão de seu país. Ele não queria a divisão dos seres humanos. Gandhi sabia que acima de nossas cabeças pendem os céus das diferentes religiões e que todos eles são de vidro. As diferenças são que alguns deles são mais extensos que os outros e que alguns permitem ver mais longe que os outros, isto é, alguns são mais translúcidos que os demais. Assim, mais do que crenças, o que nos une, Gandhi sabia, é nossa própria condição de limitados observadores e intérpretes da vida. É por isso que ele podia identificar-se não apenas como hindu, mas como muçulmano, como judeu e como cristão, pois identificava-se como e com o humano, em toda a sua limitação, parcialidade e desajuste.

Na abertura do filme consta uma citação de Einstein, onde ele diz, aproximadamente, que quando contássemos às gerações futuras a respeito de Gandhi, elas duvidariam que um homem assim tivesse caminhado sobre a terra. De fato, às vezes é mais fácil acreditar que uma divindade feita gente tenha andado entre nós do que admitir que um simples mortal como qualquer outro tenha se aproximado tanto da divindade. E isso tudo agora há pouco, no século passado.

Gandhi nos abre as portas para aquilo que em nossa própria humanidade e independentemente de nossa fé é mais aparentado com Deus. Gandhi defendeu e experimentou em sua própria vida aquilo que poucos depois de Cristo experimentaram: uma profunda reconciliação com a humanidade e com Deus. E é por isso que Gandhi nos desafia. É por isso que Gandhi nos denuncia. É por isso que Gandhi nos enlouquece. É por isso que ele nos inspira. Gandhi me (ins)pira.

Camila Hochmüller

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pobres ateus!

Disseram-me que o ateísmo está crescendo.
Fiquei a pensar... Quem quer o mundo oco e solitário dos ateus?
Não eu!
Eu quero o mundo povoado dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos animistas...
Quero um mundo onde a gente não esteja só.
Um mundo com anjos de pé e caídos.
De entidades, de elfos, de mística, de mágica, de mistérios...
Quero o mundo onde os tambores invoquem.
Onde a multidão de línguas estranhas dos pentecostais façam os seres da escuridão retroceder.
Quero o mundo que produziu Beethoven que, surdo, dizia ouvir a música que Deus queria escutar, a quem aplaudiu na nona.
Que desafiou Mozart a zombar de Deus enquanto, qual o profeta Balaão, só conseguia emitir os sons que boca de Deus entoa!
Quero o encanto catártico de Haendell gritando ALELUIA! de forma arrebatadora!
A beleza de Bach nos fazendo ver a paz da Família Eterna.
Quero mundo das lindas e majestosas catedrais e dos pregadores das praças, das esquinas, dos caminhos...
Da riqueza sonora profunda dos cantos gregorianos e dos vociferantes pregadores: convocando os homens a mudar e o Espírito Santo a se levantar contra o mal.
Quero o mundo que faça um ser humano, diante a pior das borrascas, ver o seu salvador andando sobre o mar, anunciando a possibilidade.
Aquele em que o guerreiro, diante da incerteza, se ajoelha perante o Eterno e se levanta com um brilho nos olhos, certo de que tem uma missão, um motivo para brandir a espada, porque se há de correr o sangue humano, tem de haver uma razão, que dando significado a vida o faça não temer a morte.
Um mundo de poetas e romancistas, que fazem a morte gerar vida, que contam histórias porque, em meio ao mais insano, há algo para contar, e se há o que contar, então significa; e se há como contar, então há um significante anterior, de modo que, por mais que cada leitor possa, de alguma maneira, reinventar, ninguém consegue negar que leu e, se leu, podia ser lido.
Quero a fé que faz uma menina entrar numa das melhores faculdades do pais, sonhando que, um dia, tudo o que sabe ajudará um ser desprovido de tudo, num dos miseráveis cantões do planeta, a sorrir com esperança!
Quero a loucura dos missionários que abandonam tudo no presente, certos de que levarão milhares a viver o futuro.
Quem quer o socialismo frio do ateus?
Eu quero o socialismo dos crentes que, em meio à marcha dos trabalhadores e, diante do impasse do confronto com as forças do estabelecido, grita ao megafone: companheiros, avancemos! Deus está do nosso lado!
Da ciência não quero as equações, quero o grito de "Eureka!", onde o cálculo se mistura com a revelação.
Da matemática quero a música, a certeza de que há sons no universo, que não só os podemos cantar, mas que há quem nos ouve.
Que ouviremos a grande e última trombeta, que reunirá toda a criação para o canto da redenção.
Eu não quero capitalismo nenhum, mas prefiro o dos seres humanos que acreditavam que o trabalho é um culto ao Criador e que o seu produto tinha de gerar um mercado a serviço do bem.
Quem quer o capitalismo consumista dos ateus, que reduz a vida ao aqui e agora, e transforma todos em desesperados que, pensando que não sobrará para eles, correm para acumular para o nada?
Os ateus dizem que evoluímos, mas que não vamos para lugar nenhum; que a ciência pode tudo; que verdade é a palavra dos vencedores; que os mais fortes sobreviverão, e que é o direito natural deles.
Não! Mil vezes não!
Quero o mundo onde os fracos tenham direito ao Reino; onde os mansos herdarão a terra; onde os que choram serão consolados; onde os que têm fome e sede de justiça serão fartos; onde os que crêem na justiça estejam prontos a morrer por ela; onde os mortos ressuscitarão.
Quem quer um mundo explicado, onde tudo é virtude ou falha de um neuro-transmissor qualquer?
Quero um mundo onde a fé , o amor e a paixão curem, mudem histórias e construam caminhos! Onde os artistas tenham o que registrar!
Um mundo onde o sol nasça e se ponha, onde as estrelas, polvilhando o infinito, apontem um caminho, falem da esperança de uma grande e decisiva família, e que qualquer ser humano ao ver isso, não se envergonhe de falar: maravilha! Um Deus fez isto!
Mas não quero a teologia técnica...
Quero o Deus apaixonado dos cristãos, que abandona sua Glória e se faz gente, trazendo a divindade para a humanidade e, ressuscitado, ao voltar, leva a humanidade para a divindade!
Quero o Deus inquieto de Israel, o pai dos judeus, com quem é possível lutar.
Quero do Deus que se permite ser detido por um Jacó.
Quero o Deus chorão de Jesus de Nazaré, que mesmo a gente tendo brigado com Ele, nunca conseguiu brigar conosco.
O Deus Pai, Mãe e Filho que repartiu conosco o privilégio de ser!
Quero o mundo do medo do desconhecido, e do maravilhar-se com o desconhecido: o mundo do encanto.
Como disse o pai da filosofia moderna, o que se descobre ser ao pensar, precisa de um mundo para aterrissar, precisa que haja alguém que faça pensar valer a pena, alguém que, ao fim, é da onde se pensa, e se ele não existe, então nada existe, porque o que pensa não tem como pensar a partir de si.
Quero o mundo que ri da finitude; que desdenha das limitações; que resiste ao sofrimento; que olha para o infinito sabendo que nossa existência não é determinada pela morte ou por nossas impossibilidades; que não somos frutos de um acidente.
Quero mundo que se sustenta na fé de que ressuscitaremos, de que brilharemos como o sol ao meio dia; de que vale a pena lutar pelo bem; de que vale a pena existir!

Ariovaldo Ramos, via Pavablog

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Céu

Imagine a seguinte situação:

Você não é cristão, um amigo insiste para que você vá a igreja, e você aceita. O pastor fala sobre a morte e diz de uma maneira bem clara que o juízo é inevitável e que somente aqueles que "levantaram as mãos aceitando a Jesus como seu Salvador" irão para o céu, para louvar a Deus eternamente, andar em ruas de ouro e, e, e, e… muitas outras coisas maravilhosas. Os que não fizeram essa oração irão para o inferno, sofrer eternamente, levar espetada do diabo e nadar no lago de fogo. No final do culto o pastor faz uma pergunta: "Um dia você vai morrer, pra onde você quer ir? Você não quer hoje carimbar o seu passaporte para o céu? Você quer ser salvo?"

Convenhamos, qualquer pessoa com um pouco de amor próprio opta pelo céu, que de acordo com as definições usuais é um lugar extremamente chato. Nosso céu é impotente, talvez por isso falam tanto no inferno, potencializaram o terror do inferno, assim o céu, apesar de chato, torna-se a opção mais conveniente.

Certa vez li: "não podemos parar de falar no inferno, pois ele produz temor nas pessoas e assim elas aceitam a Jesus". Quer dizer que Jesus não tem qualidades suficientes? Para com isso, não podemos usar a maravilhosa mensagem do evangelho como moeda de troca ao inferno, Jesus não nos livra de um lugar, mas de algo maior: de uma maneira "infernal" de viver.

Jesus não tem apenas proposta para uma vida pós-morte, a mensagem cristã é que existe vida e vida em abundância antes da morte (Jo 10.10)

Salvação não é ir pro Céu, é seguir os passos do Mestre. Céu não é nosso destino final, nosso fim é Cristo. Não seremos felizes ao andar em ruas de ouro, seremos plenos de alegria quando o Nazareno for plenamente formado em nós.

Nossa missão não é lotar o céu, é povoar a terra de pessoas com significado existencial. Sinalizar o Reino não é "marchar para Jesus" e "pisar na cabeça do inimigo", mas é viver de modo que as pessoas vejam nossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus (Mt 5:16)

Porque sou cristão? Porque acredito em uma pessoa e o que essa pessoa sugere como vida é excelente.

Villy Camargo Fomin

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Em off

Qualquer canção de amor
É uma canção de amor
Não faz brotar amor e amantes
Porém, se esta canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor e antes

Chico Buarque *

Muito gostei de ouvir a música gospel dos corais e cantores negro-norte-americanos. Na minha estante, alguns nomes contam essa história. Lá, empoeirados, estão Fred Hammond, Yolanda Adams, Kirk Franklin, Bebe e Cece Winams, Mount Moriah Mass Choir, The Brooklyn Tabernacle Choir, entre outros. Nessa época, para mim, cantar bem tinha a ver com a gritaria, com o estardalhaço, com o virtuosismo, com a pedância em repetir um mesmo estribilho. Bons foram aqueles tempos, mas já passaram.

Em seguida tive a fase, digamos, mais branquela. Cristal Lewis e Sandi Patti eram ícones. Outra vez a gritaria reinava, essencialmente com a Patti cantando a enlouquecida Via dolorosa. Era coisa de cortar os pulsos, o que sempre me deu medo. Por sorte não havia armas em casa.

Na seqüência, descobri o worship. Outra febre. Comecei ouvindo o sóbrio Joseph L. Carlington; passei pelo Don Moen e seu Celebrate, não esqueci o Kenoly nem a versão tupiniquim representada pelo Adhemar de Campos. Nessa mesma época, tudo o que se fazia na América e se traduzia por aqui era como se tivesse caído direto do céu.

Depois foi o rock cristão. A sina da cópia foi a mesma já relatada. A linguagem da América era como se fosse a língua dos anjos.

Minha incursão pela literatura cristã percorreu o mesmo caminho. Caminho estúpido. Lembro-me do medo causado por um livro no qual se chamava Mikail Gorbachev de anticristo. Li Steven Lawson, Benny Hinn; Rebecca Brown, entre outras tristes pérolas. Dentre as minhas atuais decepções está o Max Lucado.

Minha vida mudou completamente. Hoje, aos trinta e quatro anos, sou completamente diferente dos que só me conheceram nos anos oitenta ou noventa.

Qualquer canção de bem

algum mistério tem

É o grão, é o germe, é o gen da chama

E essa canção também

Corrói, como convém,

O coração de quem não ama.

Chico Buarque

De repente eu, que fui tão protegido do mundo, descubro o mundo. Que mundo maravilhoso. Descobri que havia MAIS perto de mim do que a minha vã filosofia, do que a minha pouca visão de mundo. Na medida em que começava a incomodar o norte-americanismo, começava a conhecer o Brasil. Conheci o Grupo Logos, o Milad, o Sinal de Alerta, o Rebanhão (que alguns idiotas insistiam na mensagem subliminar). O Sergio Pimenta, o João Alexandre, o Jorge Camargo. Opa, isso tudo feito por crentes? Estarrecedoramente a resposta era sim. Na escrita, descobri o Paulo Romeiro, o Ricardo Gondim, entre outros ousados.

Adiante na minha criticidade, comecei a desconfiar dos que falavam mal do Renato Russo (não só por sua opção sexual) e do Raul Seixas. Fui ouví-los. Que bênção! Que descoberta ótima.

Passei a desconfiar dos discursos igrejeiros que ouvia.

Casei. Fui para a faculdade. Tornei-me professor. Adquiri casa própria. Aumentei consideravelmente meu leque de leituras e audições musicais. Descobri autores não cristãos: Kafka, Saramago, Dostoiévski, Graciliano, Cony, Lispector, Machado, Cecília, Adélia. Conheci outros tons: Zé Keti, Lupicínio (meu conterrâneo), Elis, Chico (nem precisava dizer), Teresa Cristina; Madonna, M. Jackson, George Michael, Lauryn Hill, Nirvana – entre muitos e muitos outros. Encontrei-me com os escritores do mal e com a música mais underground. Começava a entender por que as instituições religiosas odiavam alguns desses que acabei de citar. Percebi que as amizades – dentro ou fora da instituição – continuavam intocadas. Notei que Deus não me abandonara. Observei que “a língua dos anjos” estava mais para inglês do que espanhol ou português e que, apesar disso, Deus estava firme e imutável em se revelar pra mim via Borges, Márquez, Neruda.

Lendo ou ouvindo os nomes recém citados era-me (e ainda é) perceptível uma nuance do divino, de estética.

Passei a desconfiar ainda mais dos discursos igrejeiros que ouço. O que fazer? Tomar decisões.

Porém ainda é melhor
Sofrer em dó menor
Do que você sofrer calado.

Chico Buarque

Na idade em que estou acho que posso usufruir de alguns luxos. E assumo-os com possíveis riscos que daí advenham – inclusive o de 'torrar' no inferno.

Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou

Chico Buarque

Pelo menos por hora, desisti de ficar 'perdendo tempo' discutindo doutrina, visão de igreja, de denominação ou, pior, minha cosmovisão cristã. A razão é que, em geral, quem se envereda nesse caminho quer me convencer de que estou errado, de que tenho de mudar. Portanto, o que penso sobre cristianismo penso e pronto; meu pensamento é o “de experiência feito” - no dizer do mestre educador Paulo Freire**. Continuando com ele, preciso imediatamente dizer que cheguei num ponto da vida em que “a minha fé não me faz cínico, ela me faz indignado”. Mas não uma indignação acrítica.

Desisti de ter pressa. Agora moro numa cidade mais tranqüila, ando mais a pé. Se perco um ônibus espero o próximo ouvindo música ou lendo um livro. A correria só aumenta meus batimentos cardíacos. Pobre, levei treze anos para adquirir a casa própria; só agora serei pai. Cansei de esperar ansiosamente a volta de Cristo. Quero que Ele venha, mas sem pressa. Enquanto isso, fico por aqui, às vezes brincando, às vezes tentando crescer, às vezes tentando melhorar o mundo. Desisti de salvá-lo.

Desisti de ouvir rádio e olhar programas de televisão cristãos. Na verdade, tenho fugido de tudo que tenha a palavra gospel ou cristã. Não quero enriquecer nenhum líder de qualquer coisa em nome da obra de Deus. Tampouco ficar ouvindo receitas de como receber mais de Deus, como ser desesperado por Ele, apaixonado por Ele. Estou de saco cheio de tirar o pé do chão sem cair. Chega dessa palhaçada. Prefiro ler os chatos Lair Ribeiro e Roberto Shinyashiki a ouvir um sermão baseado muito mais neles do que na sempre ótima Bíblia. Lair e Roberto pelo menos sabem fazer o que fazem. Os 'preletores' são como vacas, ficam ruminando para, depois, regurgitar na boca de uma massa preguiçosa.

Desisti de entrar em livrarias evangélicas. Prefiro a Livraria Cultura, a Saraiva. Não é pelo marketing mas, sim, pela possibilidade de comprar uma obra melhor. Entre ouvir o Michael Smith e o Toque no Altar cantando a chata “Faz chover” prefiro as múltiplas versões da linda “Ave Maria no morro”. Tem muito mais a ver com a minha vida, com o meu cheiro, com a terra na qual Deus me permitiu nascer. Ocorre que a Ave Maria no morro não foi feita no norte, mas no sul. Então parece – para alguns – mais feia, menos divina. Pra mim não.

Desisti, por essas e outras, de 'bater o ponto' num templo. Tenho optado por compartilhar da vida com os poucos amigos. Tomar um belo café com minha mulher (de quem não sou dono) e futura mamãe. Dar um passeio pela rua ouvindo o canto dos pássaros. Ouvir um Zeca Baleiro, um Baden Powell, um gaudério como Vitor Ramil ou os conterrâneos César Oliveira e Rogério Melo. Tem sido maravilhoso descobrir As cidades invisíveis, do outro Calvino. Tenho refletido quando canto o Hino Rio-Grandense. E tem sido muito desafiador demonstrar Cristo tanto para os meus alunos da EJA como para os meus vizinhos. Ser sal num lugar onde a igreja tem sido açucar não é fácil. Desvencilhei-me. Basta de instituição.

Desisti de ter medo de Deus. Não é isso que Ele quer de mim. Ele quer que eu seja eu.

Já não tenho medo do inferno (o que é esse mundo muitas vezes?). Também não fico ruborizado quando me dizem que “Deus vai cobrar”. Muito menos sigo os conselhos dos legalistas de plantão, aqueles que se acham maduros demais na fé ou que já alcançaram um certo patamar de santificação espiritual que estão de “corpo fechado”. Ignoro os tapadores de furos, aqueles que se acham a espuma das brechas (abriu a brecha?).

Deixem-me viver em paz e escrever o que bem quiser.

Ah, estou bem. Amo a mulher que tenho e a criança que estará conosco lá pelo final de abril/2009. E porque sou humano sou imperfeito, tenho relacionamentos a melhorar; sou cheio de defeitos. Sou chato, tenho um jeito ranzinza.

Mas tenho uma certeza que me conforta: não há nada que eu possa fazer para que Deus me ame mais, ou menos. Essa é a razão de eu estar vivo. Ele me ama!!!

Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou

Chico Buarque

* As citações do Chico Buarque são das maravilhosas músicas “Qualquer canção” e “Já passou”.

** FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Araújo Freire (org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.

Levi Nauter, via Pavablog

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Odiando o Cliente

Um amigo meu, diretor de uma multinacional, para premiar um funcionário exemplar, o nomeou gerente de uma loja de suprimentos. O cara tinha uma belíssima folha na empresa, era um engenheiro da melhor qualidade, sujeito fidelíssimo, honesto, leal e – mais do que tudo – perfeitamente identificado com os credos da corporação. Era um daqueles caras meio sem imaginação, quase babaca, mas um perfeito funcionário de grande empresa.

Discutia pouco, duvidava quase nada, aceitava quase tudo. A companhia era o que de mais próximo ele podia imaginar de Deus. Meu amigo achou que a nomeação iria ser um justo reconhecimento por algumas décadas de dedicação entusiasmada. E lá foi nosso funcionário-padrão cuidar da lojinha que vendia materiais diretamente ao público, nada muito sofisticado, apenas uma prestação de serviço, mas estrategicamente importante.

No começo o novo gerente ficou muito feliz no novo cargo. No começo. Em três meses meu amigo foi procurado por um trapo humano, um cara com os nervos em frangalhos, um arremedo de gente que, quase aos prantos, pediu: Me tira daquele lugar, pelo amor de Deus! Eu ainda mato um filho-da-puta de um cliente! Eu odeio estes caras! Eu tenho nojo, eu vomito nestes escrotos. Eles chegam à loja, reclamam de tudo, acham tudo caro, pedem o que não tem, exigem entregas imediatas, querem pagar com cheques, cartão de crédito, querem prazos e descontos.

Me tira de lá! Cada vez que um merda desses abre a porta eu preciso rezar alto para não dar com um martelo na cabeça dele. Eu era feliz na minha linha de produção, sem saber que tipo desgraçado usava nossas máquinas. Eu não precisava puxar o saco desses merdinhas infelizes! Eu fazia coisas dentro da fábrica. Fazia bem feito. Nunca ninguém comparou na minha frente nosso produto com o da concorrência. Ninguém tinha coragem de dizer que alguém cobrava mais barato. Agora eles me humilham. Me tratam como serviçal. Eu mato um corno desses. Eu acabo com a raça dessa gente, juro!

Claro que meu amigo tirou o cara da loja antes que ele cumprisse a ameaça de saltar na jugular do primeiro freguês que enchesse o seu saco. Mas lendo respostas que algumas empresas escrevem para os jornais que publicam reclamações de seus consumidores, ouvindo alguns diretores de concessionárias de serviço público falando no rádio e na TV, eu começo a desconfiar que a doença daquele gerente pega. E está se alastrando. Eu tenho ficado horrorizado com a empáfia, a arrogância com que muitas empresas tratam seus clientes quando respondem as suas reclamações. Citam contratos, normas empresariais, como se a turminha que compra os produtos e serviços deles não passasse de um bando de ingratos, espertos, fraudulentos.

Planos de saúde, seguradoras e montadoras de automóveis lideram a lista. Mas não devemos esquecer empresas aéreas, hotéis e restaurantes. O cliente nunca, jamais, tem uma simples sombra de razão. O máximo que se consegue é uma frase padronizada do tipo “passamos a reclamação para a sessão encarregada”. Mais ou menos um “foda-se” com alguma dose de hipocrisia. Sei não, mas ando desconfiado que aquele gerente de loja funcionário do meu amigo abriu um cursinho para formação de redatores de cartas para clientes. Hoje acordei puto com essa turma. Desculpe.

Lula Vieira, via Propaganda & Marketing

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Coisas que fazem mal quando você faz o bem

As afirmações abaixo são verdadeiras.

Se você gosta de evitar fazer o mal, não leia.

Caso você deseje fazer o mal, leia.

Se você é bom, leia com atenção. Pode ser que você mude de idéia acerca de você mesmo.

Havendo dúvida, leia assim mesmo.

Havendo certeza, não perca seu tempo. Leia outra coisa.

Não havendo nada para fazer, faça o bem.

Se você não sabe o que é bom, olhe no espelho, abra a janela, beba água, ande, coma, beba, ame, e não se sinta culpado por gostar dessas banalidades. Faz bem!

Preparado? Não fique demais. Não há nada maravilhoso e nem tampouco novo sendo escrito aqui.

Leia então:

1. É mal fazer o bem para todo aquele que é mau. Ele o odiará pela maldade de seu bem.

2. É mal pensar o bem acerca de quem só concebe o mal. Ele usará você sem escrúpulos.

3. É mal desejar que o Bem aconteça a quem o inveje por você ser bom. Ele o julgará superior e o invejará com todo ódio.

4. É mal realizar o bem a quem tem complexo de inferioridade em relação a você. Ele crerá que você o está humilhando.

5. É mal não fazer nada de mal a quem só deseja o mal a você. Ele não agüentará a sua não-resposta às provocações.

6. É mal ajudar o covarde quando ele está em desvantagem. Ele pensará que você é cúmplice.

7. É mal fazer o bem aos que tudo vêem como impuro. Sua bondade será interpretada como frouxidão.

8. É mal fazer o bem aos que o adulam. Eles pensarão que sua bondade é pagamento e tentarão ampliar os negócios com sua alma.

9. É mal fazer o bem a quem não ama. Ele nunca acreditará em você.

10. É mal fazer o bem a quem cobiça. Ele desejará seu bem a serviço dos interesses dele.

Bem, já que é assim, dê uma surra de bondade no mundo!

Transgrida esses princípios sempre. Será para o seu Bem. Espero que você seja incorrigível.

Seja esse pecador. Peque esse pecado. Sofra desse mal. Você está condenado!

Graças a Deus!

Caio Fábio, via Pavablog

DEFINITIVAMENTE EU QUERO APRENDER MAIS SOBRE COMO SER ESSE "PECADOR"...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Literatura é briga de rua.

Alguns autores andam de canivete, outros com garrafa quebrada.

Entro no texto com o bolso cheio de pedras. Vou esvaziando com o cansaço.

Para escrever, procuro sempre em pensamento a companhia de um tímido.

Ao lado dele, estou bem protegido. O tímido é o único audacioso que existe.

Fiel como um gato com almofada, um cachorro com osso. Não muda de opinião para agradar. Tem a arte marcial das poucas palavras.

Ele não ataca, explode.

O irmão Miguel é meu tímido preferido. Suave e tranqüilo; não merecia nascer numa família excessivamente escandalosa como a nossa. Não grita em público, não canta no chuveiro, não assovia, muito menos se enerva com barbeiragem no trânsito.

Diz obrigado mesmo quando faz um favor. Agradece a si. Não é para menos que se tornou juiz. Seu silêncio já surgia adulto antes de caminhar.

Na escola, nunca arrumou briga, ao contrário do Rodrigo que se engalfinhou em socos e pontapés com um colega durante três recreios consecutivos (foi a maior luta de boxe do colégio Imperatriz Leopoldina) e de mim, que cuspia e cotovelava os oponentes nos jogos de futebol.

Ele nunca perdeu a postura até que um dia alguém de sua turma insinuou que a nossa mãe era uma piranha porque estava separada. Isso que minha mãe nunca mais casou ou namorou após o divórcio.

Com respeitosa mudez, pediu que não me mexesse, deu dois passos para perto da figura insolente, um menino ruivo, como se fosse cumprimentá-lo. Fiquei espantado com sua diplomacia de guerra. De onde tirou o sangue-frio? Chegou rente aos seus ombros e disparou algo em seu ouvido. Não consegui entender, ninguém escutou.

O troglodita de espinhas fechou a boca, resmungou um lamento de gaita e desandou a chorar.

Chorava e se desculpava compulsivamente.

Sem nenhum empurrão e gancho, sem força física alguma, com a simples troca de um sussurro, Miguel espancou o guri.

Tanto que, ao longo dos anos escolares, o fedelho mudava o caminho e fugia quando a gente se aproximava pelos corredores.

Gostaria de saber o que ele pronunciou para desmontar a guarda e o insulto.

Deve ser o verso perfeito que procuro.

Fonte: Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Enfeites de Natal

O Natal é um período mágico para muitas pessoas. Mas, para mim não. Sempre achei o Natal e o Ano Novo sombrios. É uma sensação que carrego desde criança.

Não tenho nenhum trauma inerente que explique esse sentimento. Meus pais não tinham dinheiro para bancar um dezembro da forma como a cultura consumista prega. Mas, não era um suplício para nós. Na verdade minhas recordações dos dias de Natal e Ano Novo são de ficar assistindo as programações da Globo depois de uma boa janta com meus pais e irmãs.

Lembro que no meu quarto, sozinho, cantava Parabéns pra você a Jesus. Achava que era o que devia ser feito já que comemorávamos o nascimento dele. Esboço um sorriso lembrando da inocência e pureza em meu coração.

Na verdade não consigo me alegrar como todas as pessoas na época do Natal. Não consigo me exultar como a data manda. É que penso que é uma época tão difícil para tantos outros que sofrem porque não conseguem passar um Natal e um Ano Novo da maneira como veem na TV que não consigo parar de pensar na banalidade da data. O apelo comercial chega a me enojar por causa disso. Sinto que há um certo desrespeito e desconsideração com os que não tem recursos para conseguir uma Ceia com peru e vinho e bastante comida pra reunir toda a família. Que não tem como comprar presentes para os filhos. Montam uma pequena árvore de Natal que serve como contraste social. Não sei, acho muito triste tudo isso!

Os primeiros cristãos sequer comemoravam o Natal. E de fato não é uma comemoração bíblica. Mas, com certeza é uma data comercial. Claro, a economia precisa se mover e é um período oportuno para tal. Mas, creio que esse lance comercial poderia ser menos agressivo e invasivo.

Gasta-se muito dinheiro com futilidades natalinas. As cidades ficam enfeitadas e exuberantes, mas, escondem seus desabrigados e meninos de rua em becos e vielas escuras que não brilham como as luzes de Natal. Negligencia-se os velhos nas praças e calçadas enquanto a atenção é voltada para o simpático Papai Noel, um velhinho mais agradável às vistas.

Não sou nem um pouco empolgado com a reluzência da data. Não acho isso bonito. Bonito é o povo sendo solidário. É a mobilização nacional em favor das vítimas em Santa Catarina. Bonito é a distribuição de cobertores e comida para moradores de rua. Bonito é proporcionar um Natal digno para os que já sofreram tanto durante o ano, e dar-lhes esperanças para um próximo.

Hoje aqui no trabalho vieram me pedir uma contribuição para enfeitar o ambiente com pisca-pisca, árvore de Natal, bolinhas, enfeites e essas coisas todas. Olhei para elas e disse: Não consigo contribuir para enfeitar uma árvore de Natal sabendo que posso contribuir com a amenização do sofrimento das vítimas de Santa Catarina. É pouco? Sim. Mas, prefiro doar meu pouco para algo mais nobre do que para algo tão frívolo. Sentiria muita vergonha de ter a oportunidade de ajudar e ao invés disso, tirar 1 ou 2 reais da minha contribuição para enfeitar uma inútil árvore de Natal. 1 ou 2 reais já seriam algumas pastas de dentes a menos para eles,ou alguns sabonetes a menos, ou algumas escovas de dente a menos, ou alguns pães a menos em algum dia, etc, etc... num momento como esse as necessidades mais básicas são faltas terríveis numa rotina já tão sofrível!

Ah, fazer o que? A galera aqui já sabe que sou radicalzinho mesmo...

Thiago Mendanha, via Tomei a Pílula Vermelha

É mais ou menos o mesmo sentimento que eu carrego aqui comigo... com a diferença de que nunca tive uma família, nem ceia de Natal, nem nada semelhante. As vezes vejo as pessoas se reunindo para cearem, se confraternizarem... e sinto uma pontinha de tristeza... mas Deus me deu o escape. No Natal espero pegar ondas, no Ano Novo, mais ondas... a não ser que Ele me reserve alguma experiência nova! =)

Aloha!