terça-feira, 27 de julho de 2010

A vida a caminho do Guarujá



Abri o olho devagar. Eu já tinha acordado há algum tempo e esse processo não passou de uma negociacão racional entre eu e minhas pupilas.

Fui deixando a luz entrar, desenhando na retina, pouco a pouco, os espaços do quarto, os spots de luz do teto, a cor do edredon, a TV desligada virada na minha direção e as frestas da janela.

O nariz acordou depois e ajudou os olhos a encontrarem na cama, pelo perfume, a menina que dormiu comigo. A presença dela, o cansaço fruto da semana exigente e da noitada de sexta-feira foram se misturando na elaboração da desculpa para não ir surfar.

Desculpa para convencer apenas a mim mesmo, afinal, já era uma hora da tarde e se meus amigos tivessem ido para a praia, já estariam n'água há muito tempo.

Um rabicho de sono, esquecido em algum canto, me alcançou enquanto eu rolava para o lado, enfiando meu nariz entre os cabelos dela para me esconder da responsabilidade e dividir, assim, a culpa pela preguiça.

Mas, não. O surfe muda tudo e depois dele eu nunca mais consegui ficar na cama num sábado. Nessa tarde não seria diferente e após uma hora, gasta entre tomar café, prender prancha no teto do carro e buscar biquini, estávamos os dois, na estrada, conversando sobre a vida a caminho do Guarujá.

O papo ajudou o tempo a passar e, enquanto a ouvia falar sobre bebedeiras e outras estórias, com o canto do olho vi o sol baixar cada vez mais rápido, me obrigando a fazer as contas de quanto tempo de surfe eu teria até que a luz acabasse: uma hora, um pouco mais se tivesse sorte.

Foi a primeira vez que caí no Tombo num final de tarde. A praia é virada para o sul, o que faz com que o sol se ponha no continente, bem atrás da areia. A cada onda que vinha eu me virava e, remando para o drop, dava de cara com o alaranjado e magenta das últimas luzes do dia.

O mar estava bom e todos que estavam dentro d'água teimavam em deixá-lo. A visibilidade foi piorando muito graças à chegada da noite e de uma bruma que veio de longe, avançou pela areia, ruas e prédios, deixando tudo um pouco embaçado e grudento. Olhei para a praia tentando ver a menina que, mal iluminada pelas poucas luzes vindas dos bares na calçada, desaparecia entre a maresia e o breu.

Quando estava para sair d'água, veio uma ótima onda. Era para ser a última, mas, de tão boa, me fez querer mais outra e me obriguei a remar de volta para dentro do mar escuro. Cheguei na areia uns vinte minutos depois e apesar dela estar lá me esperando, alguma coisa tinha acontecido entre nós. Ou deixado de acontecer, vai entender.

Mas fato é que, depois desse sábado, achamos melhor nos despedirmos um do outro. Justo que tenha sido assim. Acredito que ambos saímos dali com um frame na memória: há algum tempo a bruma tinha entrado no nosso curto relacionamento e a imagem dela, desaparecendo sentada na areia, me pareceu um sinal. Talvez para ela, eu, remando para o outside naquela tarde, também tenha sido revelador de alguma forma.


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