terça-feira, 25 de novembro de 2008

Briga de cocheira nos camarotes

Nunca tive dúvidas sobre o caráter de quem fura fila de cinema. Normalmente, são as mesmas pessoas que gostariam de andar armadas e que não acreditam nem em esquerda nem em direita – o reacionário anônimo. Colho, aqui e ali, relatos impressionantes sobre a briga de cocheira ocorrida nos camarotes VIP (é uma sigla idiota, mas um emblema poderoso) do Bezerrão, o estádio reformado do Gama. Aliás, uma lembrança do site da minha amiga Ana Maria Campos: o médico Agnelo Queiroz, do PCdoB, ex-ministro dos Esportes, foi quem viabilizou, politicamente, a liberação dos primeiros 6 milhões de reais para a reforma do estádio. Mas não foi convidado pelo governador José Roberto Arruda, do ex-PFL. Veja bem, Arruda prometeu, na campanha passada, que abriria mão de se candidatar à reeleição como prova de lealdade ao vice Paulo Octávio, maior empreiteiro do Distrito Federal. É uma piada pronta, mas só será contada a partir do ano que vem.

Mas, de volta ao Bezerrão, onde cinco mil convites foram distribuídos para autoridades, assessores e agregados. Brasil e Portugal, jogão. Acho ser de Millôr Fernandes a constatação de que, em Brasília, a menor autoridade possível é a de assessor. Há muitos, como uma praga, gravitando em torno de executivos e parlamentares. No dia do jogo, essa turba de poucas castas se debateu por convites até o limite da selvageria, menos para ver as peripécias de Kaká e Cristiano Ronaldo, mais pela oportunidade de fazer parte da turma, de aparecer nas patéticas colunas sociais da província, para bajular ou, simplesmente e muitíssimo mais provável, para se esbaldar de croquetes e vinho barato. Pelé, sorridente, apareceu do lado de Galvão Bueno, um constrangimento só. Bueno só faltou chamar Pelé de almirante negro para tentar disfarçar o fato de que o mundo todo já viu no youtube ele xingando o cara pelas costas. Pelé foi mau, muito mau, para um homem de Três Corações (é o trocadilho preferido dele, falou umas quatro vezes no ar). Lembrou da baixaria de Galvão Bueno no primeiro minuto.

Zezé de Camargo cantando o hino nacional. Felipe Massa desfilando num carrinho de carregar contundido. O governador no campo, fazendo média, de camisa de seda. Eu sei que é cada vez mais difícil defender essa tese, mas a vinda da capital para o interior, embora defensável em muitos aspectos, torna-se injustificável do ponto de vista cultural. O Rio de Janeiro teria conservado na corte os bons traços da Corte, dos anos duros da República Velha, dos prédios de dois séculos, das ruas antigas e das linhas malhadas do calçadão. O Rio seria como Buenos Aires, como Santiago ou Lima. Cidades empobrecidas, mas ricas, vivas e belas de memória cultural. Velhas capitais. Aqui, temos esse pastelão VIP de jecas de primeiro escalão, onde a elite não tira o plástico do banco do carro novo e disputa espaço nas ruas com carroças puxadas a pangarés.

Leandro Fortes, via Carta Capital

Por essas e outras que peguei nojo de futebol, de gente querendo aparecer, de balada, de mídia insana, de jeca, de caipira, de playboy com caminhonete importada e chapelão & botas... de gente que ri alto, forçadamente, para chamar atenção... de rádio - ou telefone celular - no viva-voz... afff... é tanta coisa deprimente que não dá para continuar sem perder o bom humor. É deprimente, na maioria das vezes, conviver com tudo isso e sentir-se impotnte... porque a maioria das pessoas aprova essa gentinha...

Nenhum comentário: